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13 junho 2011

Quinze dias em setembro, de Ryoki Inoue

"Estes, sim, precisavam enxergar que o mundo não tinha acabado e que a vida, como num espetáculo circense após a queda fatal da trapezista, teria de continuar." (p. 313)

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O caso é freqüente: muitos médicos abandonam a sua exaustiva e honrada profissão para tentar o reconhecimento como escritores. São vários os exemplos de personalidades que entraram nessa empreitada e conseguiram sucesso, como é o caso de Michael Crichton, Tess Gerritsen e Arthur Conan Doyle*. Todos esses ex-médicos conseguiram alavancar um grande número de leitores, e seus livros são bastante lidos inclusive no Brasil.

Temos também os exemplos não tão famosos, como por exemplo o do brasileiro Ryoki Inoue, paulista formado em medicina que, desde 1986, deixou o estetoscópio de lado e pôs as mãos na máquina de escrever. Até agora, publicou mais de 1.000 livros, e é por esse feito impressionante que seu nome está no Guinness Book.

Depois que eu descobri esse autor e soube desse detalhe, achei de boa política ler alguma coisa do escritor mais prolífico do mundo. Por que não? Será que ele tem qualidade, ou é só quantidade, mesmo?Escolhi um de seus romances mais famosos, Quinze dias em setembro (2008), e matei minha curiosidade.


Sinopse: Fefê é um playboy paulistano. Donovan e Steinberg são investigadores do FBI. Amina é médica. Samira sonha em ser modelo. Mathew e Natalie são jornalistas. Hafez, Mohamed e Ibrahim são religiosos extremistas. O que todos têm em comum? Suas vidas se encontram por causa de um único evento: o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center.

Com uma narrativa que transcorre simultaneamente em São Paulo e Nova York, Quinze dias em setembro possui uma trama repleta de ação, suspense e reviravoltas.


Desde o começo, uma coisa fica clara: o livro deve ser tratado como um romance de puro entretenimento. A escrita de Inoue é objetiva, sem floreios sofisticados. No início a narrativa alterna trechos rápidos que focam em diferentes personagens, apresentando-os ao leitor. Logo no prólogo, fica um tom de mistério suspenso no ar, porque a história começa já avançada para o atentado às Torres Gêmeas, e o leitor fica sem entender as motivações dos personagens que estão sendo apresentados. Só depois, quando o primeiro capítulo começa, é que o tempo retrocede até o início de tudo. E, então, a história efetivamente começa.

Logicamente, não é por ser um romance de puro entretenimento que o livro de Inoue é ruim. Pelo contrário, consegue prender bastante a atenção, principalmente da metade para nos capítulos finais. O problema, nesse caso, talvez esteja nos primeiros capítulos: fica a sensação de uma história que tem pouco a ver com a sinopse, que se arrasta. Além do mais, o personagem Fefê, principal protagonista no início, tem um caráter muito desagradável, e é duro ter que continuar a leitura sendo guiado só por esse jovem playboy imaturo.


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Escritor brasileiro Ryoki Inoue figura no Guinness como o autor mais prolífico do mundo


O segundo defeito sério do livro está na insistência do autor em utilizar a técnica de fazer os personagens verbalizarem explicitamente os seus pensamentos. São muitos os exemplos em que, no meio do texto, as aspas se abrem e o pensamento do personagem começa a ser destilado minuciosamente em primeira pessoa, o que é muito maçante na maioria das vezes. De repente, mesmo estando sozinho, alguém começa a murmurar consigo algo do tipo: "O que farei agora? Não posso deixar transparecer isso! Já sei! Vou fazer tal coisa, para que Fulano não pense mal de mim. Agirei assim e assim, e espero que nada dê errado…"

Esse recurso muito usado por novelas estraga (bastante) uma boa parte da experiência da leitura, pelo menos na minha opinião. Nas novelas até que o recurso se justifica, já que elas não têm outro meio de deixar claro o que vai pela cabeça do personagem… mas em um livro?

Bem, por mais que não pareça, eu garanto que, tirando esses dois defeitos (começo arrastado e a insistente "verbalização de pensamentos"), o livro consegue prender a atenção e ser bom. A trama intrincada e o submundo dos grandes milionários como João Antônio, aliados a falsidade ideológica e uma miríade de outros crimes, atrai e muito os admiradores de romances policiais. E, nesse caso, o romance de Ryoki tem sucesso e não desaponta.


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Juro que só depois de bater a foto é que eu me dei conta da coincidência do avião no marcador


Recomendo Quinze dias em setembro para quem quer uma leitura leve. Para quem não está a fim de quebrar a cabeça com conflitos psicológicos sérios, mas com intrigas policiais envolvendo o FBI, com direito a trapaças e dinheiro sujo. Nas mãos de Inoue, esses ingredientes de trama policial me entreteram muito.

Por fim, eu queria dizer que o romance ganha pontos quando analisa criticamente o atentado do dia 11/09. Os personagens Natalie e Mathew, como jornalistas, discutem em muitos trechos as conseqüências do ataque terrorista para o mundo – conseqüências econômicas e políticas. Com essa análise, o "entretenimento" ganha um toque mais sofisticado, já que não usa o trágico acontecimento como mero fio condutor.


* Conan Doyle abandonou a carreira de médico em 1891, quatro anos depois de ter escrito Um estudo em vermelho, primeira aventura de Sherlock Holmes.

22 maio 2011

A carta de Chris para Ron

Na última terça-feira, meu professor de Psicologia Social II resolveu passar para os seus alunos uma exibição do filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn e estrelado por Emile Hirsch.

O filme conta a história verídica de Christopher McCandless, jovem americano de família rica que abandonou toda a sua vida burguesa de conforto para partir rumo ao Alasca, numa aventura de provação e auto-descobrimento. Ao longo do caminho, ele encontrou várias pessoas dispostas a ajudá-lo em sua jornada; Ron Franz foi uma delas, um velhinho solitário de 70 e poucos anos, que se afeiçoou muito a Chris.

Além de ter uma história muito interessante e instigante, o filme em si é visualmente lindo, e talvez tenha sido por esse motivo que já o assisti 8 vezes. A idéia deste post é mostrar a carta mais famosa que Chris escreveu a Ron, carta que está publicada no livro Na natureza selvagem, de Jon Krakauer. Acho que vale a pena lê-la.


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"(…)

Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com nossa separação. Pode levar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu esti­lo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.

Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espíri­to, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol.

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Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de inicio, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível.

Em resumo, Ron, saia de Salton City e caia na estrada. Garanto que ficará muito contente em fazer isso. Mas temo que você ignore meu conselho. Você acha que eu sou teimoso, mas você é ainda mais teimoso do que eu. Você tinha uma chance mara­vilhosa quando voltou da visita a uma das maiores vistas da Terra, o Grand Canyon, algo que todo americano deveria apreciar pelo menos uma vez na vida. Mas, por alguma razão incompreensível para mim, você só que­ria voltar correndo para casa, direto para a mesma situação que vê dia após dia. Temo que você seguirá essa mesma tendência no futu­ro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir.

Não se acomode nem fique sen­tado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências.

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Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principal­mente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional.

O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está sim­plesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações.

(…)

Você verá coisas e conhecerá pessoas e há muito a aprender com elas. Deve fazer isso no estilo econômico, sem motéis, cozinhando sua comida como regra geral, gastando o menos que puder e vai gostar imensamen­te disso. Espero que na próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito, muito con­tente por ter feito."

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01 março 2011

A cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom

"A maior sabedoria é ter o presente como objeto maior da vida, pois ele é a única realidade, tudo o mais é imaginação." (p. 76)

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Foi depois do sucesso de Quando Nietzsche chorou que eu comecei a ver os outros livros do autor Irvin D. Yalom serem lançados por aqui pelo Brasil.

Na semana passada, contrariando meu hábito de não ler nenhum tipo de literatura no período de aulas, eu comecei o romance A cura de Schopenhauer (The Schopenhauer cure, 2005), e o terminei ontem.

A leitura foi feita em conjunto com minha queridíssima amiga Gleici Ketlem, leitora de livros tão voraz quanto eu. Te adoro, Gle! :)


Sinopse: Ao descobrir-se portador de um câncer fatal, Julius Hertzfeld faz uma avaliação de sua longa carreira como psicoterapeuta e decide procurar seu maior fracasso – um antigo paciente chamado Philip Slate, viciado em sexo que curou a si mesmo seguindo as doutrinas de Schopenhauer – e o convida a participar de sua terapia em grupo.

A presença de uma ex-conquista de Philip, que o odeia pela frieza com que a descartou, obriga-o a encarar o passado e desencadeia conflitos entre os pacientes e acirradas discussões filosóficas com Julius.


De Irvin D. Yalom eu só havia lido Quando Nietzsche chorou, que recebi de presente do meu amigo padre Alfred – alemão que estuda comigo na universidade. A história é um misto de ficção e fato, em que o analista Joseph Breuer (mentor e amigo de Sigmund Freud) trata um paciente mais que extraordinário: ninguém menos que o filósofo Friedrich Nietzsche, portador de uma angst terrível. Enquanto o maduro Breuer analisa Nietzsche sessão após sessão, vemos um Freud jovem e cheio de expectativas ter os seus primeiros insights sobre a teoria do inconsciente.

Em A cura de Schopenhauer, temos um enredo bem menos ambicioso. Não é um épico, e as personagens não são figuras importantíssimas das ciências humanas, como ocorre no Quando Nietzsche chorou. Estamos diante de um enredo mais linear que o do best-seller do autor, mais enxuto, talvez, mais descomplicado. Mesmo assim, mesmo com essa simplicidade aparente, digo que gostei mais deste, A cura de Schopenhauer.

O livro é ótimo. Mas sou de certa forma suspeito para falar isso, porque, na condição de estudante de Psicologia, me interesso por temas que nem sempre interessam a terceiros. Isso não significa, óbvio, que quem não é do ramo da Psicologia não vai gostar do livro que acabei de ler ontem. No entanto, é aconselhável que o leitor tenha pelo menos um mínimo de interesse por psicoterapias, psicologia, filosofia e coisas afins.


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Capa de Quando Nietzsche chorou e foto de Arthur Schopenhauer


Um dos maiores atrativos do livro são os capítulos em que Yalom conta a vida de Schopenhauer, de maneira resumida e voltada para curiosidades sobre esse excêntrico filósofo alemão. Esses capítulos são como que inseridos à parte na história, geralmente alternando com os capítulos em que se narra o enredo propriamente dito. A biografia de Schopenhauer é destilada com leveza e graça, e isso é um ótimo ponto de apoio para quem está lendo o livro, além de ser fonte cheia para quem está atrás de saber algo sobre a vida desse homem.

De um modo geral, A cura de Schopenhauer é um livro que só se passa em um único cenário, salvo na ocasião em que se narra a viagem de Pam à Índia. Fora isso, todo o drama dos personagens tem lugar na sala da terapia de grupo, o que, para uns, pode ser extremamente monótono e desinteressante. Realmente, acho que Yalom poderia ter expandido mais o palco e ter mostrado a vida dos personagens mais para além do grupo terapêutico. Erro dele? Não necessariamente. Apenas uma preferência em dar ênfase à psicoterapia.

Cada capítulo é iniciado com um trecho da obra de Schopenhauer, todos muito bonitos e reflexivos. Um que achei bastante especial foi o seguinte:

A vida pode ser comparada a um bordado que, no começo, vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos. p. 238

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Em suma, adorei A cura de Schopenhauer, livro que achei mais interessante do que Quando Nietzsche chorou, best-seller de Irvin D. Yalom. Agora fiquei com mais vontade de ler os escritos de Schopenhauer; eu já tinha lido A arte de escrever, que achei belíssimo. Talvez eu vá atrás de O mundo como vontade e representação.


Conclusão: interessantíssimo para quem quer ler algo sobre psicoterapia ou filosofia. Nesse aspecto, recomendadíssimo.

16 janeiro 2011

5 livros que eu li em 2010 e que você gostará de ler em 2011

Agora que eu estou ouvindo Bob Dylan, meu espírito se soltou, se desprendeu de todos os preconceitos e me sinto apto – de corpo e alma – a listar as minhas leituras preferidas do ano passado.

A cada ano, faço aqui no blog uma pequena lista dos melhores livros que li nos últimos 12 meses. É sempre uma tarefa penosa, como podem imaginar, escolher cinco dentre tantas boas leituras; mas, seguindo as antigas conclusões de Darwin, faço questão de que as mais destacadas prevaleçam.

Então, vamos lá. Embora estejam numeradas, as indicações não seguem nenhuma ordem de preferência.


1) À espera de um milagre, de Stephen King

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Envolvente, elegante, belíssimo, misterioso e, como quase todas as obras de King, sobrenatural. Estamos falando de À espera de um milagre, tido pelo Boston Globe como a conjugação de tudo o que existe de melhor nos livros de Stephen King.

Neste romance, acompanhamos o drama de Paul Edgecombe, o chefe dos guardas de uma ala penitenciária onde ficam os condenados à cadeira elétrica. A cruel, mas normal, rotina de Paul e seus colegas de trabalho muda quando chega à ala um gigante negro de nome John Coffey – portador de uma assombrosa habilidade, a de curar doenças irreversíveis somente usando as mãos.

Reflexões sobre morte, velhice, justiça e até mesmo amor são inevitáveis. Um livro emocionante e cativante.


2) Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt

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Última ótima leitura de 2010. Não há silêncio que não termine é o relato pessoal de Ingrid Betancourt sobre o seu penoso cativeiro de quase 7 anos nas mãos das Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Seqüestrada por motivos políticos, Ingrid passou fome e sofreu grandes humilhações, vivendo em condições humanas precárias como prisioneira na selva amazônica. Narrado em forma de thriller de aventura (e aí está o diferencial da obra), o livro é um convite à reflexão sobre as questões sociais que afligem o continente sul-americano.

Com uma linguagem belíssima e poética, clara e contundente, Ingrid mostra aos seus leitores que, mesmo em condições de extrema penúria, a esperança é a última que morre. E, tal como Nando Parrado, nos mostra que o oposto da morte não é a vida, mas o amor.


3) Templo, de Matthew Reilly

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Aqui está um tipo de livro de aventura que eu não via desde a época antiga de Michael Crichton. Aliás, como disse um conceituado jornal americano (que agora esqueci o nome), "Reilly é o Michael Crichton da Austrália".

Pois bem. Templo é um thriller despretensioso que tem como personagem principal um jovem professor de latim, William Race, chamado às pressas para compor uma equipe organizada pelo governo. Missão: seguir as instruções de um manuscrito lendário e, assim, encontrar um ídolo perdido na selva inca, ídolo esse talhado em uma pedra que possui uma substância propícia à construção de uma arma de destruição global, etc. E isso deve ser feito antes que um grupo neo-nazista ponha as mãos no artefato.

No entanto, à medida que a aventura se desenrola, Race percebe que o governo americano está de sacanagem e lhe esconde alguma informação importante.

Mesmo com essa sinopse clichê e tendenciosa, Templo é um livro que vale a pena por causa da história divertidíssima. Entretenimento garantido, cheio de reviravoltas, suspense e surpresas…


4) Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro

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Desiludido com o trabalho e com as pessoas, deprimido por ter sido abandonado pela namorada que caiu na estrada e foi embora para a Bahia, Pedro Paulo pede demissão do emprego de corretor financeiro e embarca numa jornada de carro através do Brasil.

Seu objetivo, inicialmente, é sair do Rio de Janeiro e reencontrar Dalva, a ex-namorada que fugiu para a Bahia; acontece que, durante o percurso, Pedro Paulo conhece Serena, uma atraente mulher que vaga pelas estradas com o filho pequeno e que tem um passado misterioso. A partir desse encontro com Serena, a história do protagonista toma um novo e surpreendente rumo.

Quando só restar o mundo é a afirmação da maturidade artística de Mauro Pinheiro, autor elogiado por Antônio Houaiss e que traz em seus livros sempre um viés poético e filosófico, além de um vasto panorama do território brasileiro.


5) O Palácio de Espelho, de Amitav Ghosh

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Mestre consumado em evocar épocas e civilizações passadas, Amitav Ghosh escreveu O Palácio de Espelho a fim de contar, em forma de romance, todo o processo que levou a Birmânia, a Índia e a Malásia à modernidade, abarcando um período que vai desde o final do século XIX até meados dos anos 2000.

É difícil traçar uma sinopse precisa desta monumental e ambiciosa obra, porque são várias as histórias que regem o enredo. Mesmo assim, o eixo central parece girar em torno do personagem Rajkumar Raha. O livro tem início com Rajkumar ainda criança, já órfão, trabalhando na casa de uma senhora na Birmânia. É aí nesse país que ele, por acaso, entra em contato com Dolly, uma bela pajem da rainha.

Depois que a Grã-Bretanha ocupa a Birmânia e Dolly é obrigada a acompanhar a Família Real no exílio à Índia, Rajkumar adere ao crescente negócio de exportação de madeira, se torna um homem rico e, nunca tendo esquecido seu amor de infância, parte em busca de Dolly.

Dono de uma linguagem com clareza primorosa, Ghosh consegue transformar um romance épico romântico em algo extremamente interessante e rico, perfeitamente explorado por todos os lados, recheado de detalhes históricos.


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O Cubo de Rubik solucionado, enfim! (Foto tremida, eu sei)


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Cubo de Rubik, estante nacional e o pingüim natalino que perdeu o chapéu


É isso! E que venham ótimas leituras em 2011! Aliás, este é um ano que promete coisas boas… Mar de papoulas, Latitudes piratas e, provavelmente, algum romance de Haruki Murakami traduzido pela Alfaguara.

E um Feliz Ano-Novo atrasado para todos! :P

20 dezembro 2010

Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt

"(…) o apaziguamento por ter reencontrado minha liberdade não podia nem de longe ser comparado com a intensidade do martírio que vivi." (p. 38)

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Agora que o inverno finalmente chegou em Fortaleza, posso fazer aquilo que adoro, e pelo qual eu substituo qualquer outro programa: ler na poltrona da varanda do meu apartamento, acompanhando com a vista as pesadas nuvens cinzas que vão na direção leste-oeste, sopradas pelo vento frio que vem da praia.

Foi assim que finalizei hoje a leitura de Não há silêncio que não termine (Même le silence a une fin, 2010). Este fascinante livro escrito pela ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, é o relato dos quase sete anos que a refém política passou na selva amazônica, junto com outros prisioneiros, nas mãos da guerrilha narcotraficante intitulada Farc.


Sinopse: Este livro conta a história da ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt, que passou 6 anos como prisioneira na selva amazônica. Capturada pelas FARC, uma guerrilha colombiana, ela sofreu humilhações e passou por momentos difíceis. Aqui, Ingrid conta como foi seu cativeiro nas mãos dos guerrilheiros de uma das mais perigosas facções do mundo. 

Leia capítulos do livro aqui.


O livro conta a história de Ingrid desde umas poucas semanas antes do seqüestro, em fevereiro de 2002, até o dia em que foi finalmente resgatada pelo Exército colombiano, em julho de 2008. Temos aí, portanto, seis anos e cinco meses condensados em 550 páginas e 82 capítulos.

Duas coisas me estimularam a ler Não há silêncio que não termine. Primeiro, sempre me interessei por este tipo de história, em que pessoas são submetidas a situações extremas e passam um longo tempo fora do contato com o mundo como o conhecemos (me interesso tanto que basta dizer que tenho na minha estante Milagre nos Andes, Os sobreviventes, Na natureza selvagem e, porque não, Sete anos no Tibet).

Essas provações pelas quais as pessoas passam me fascinam porque sempre adorei acompanhar as mudanças que se operam dentro de cada indivíduo protagonista da história em questão. Para mim, existe algo de mágico em extrair as lições que eles aprenderam, a trilhar os caminhos que eles trilharam e, até mesmo, a sofrer tudo o que sofreram. Milagre nos Andes talvez seja o exemplo mais categórico disso que estou falando. O único aspecto inconveniente desse tipo de história é que, quando o relato é contado em primeira pessoa, sem dúvida ele está correndo o risco de ser parcial.


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Ingrid Betancourt poucas horas antes do seqüestro, em fevereiro/2002


Bem. O segundo fator que me estimulou a ler o livro de Ingrid foi o seu estilo de escrita: assim que peguei o volume nas mãos, observei que os parágrafos eram a um só tempo enxutos e minuciosos, elegantes, claros, poéticos e acima de tudo cativantes. É o estilo de escrita que eu sempre elogio nos livros e do qual mais gosto. Não são todas as pessoas que conseguem escrever assim.

Aliás, a habilidade de Ingrid com as palavras é tão grande que eu não me surpreenderia se ela tivesse decidido seguir a carreira de escritora, em vez de atuar na política. Assim como não me surpreenderia se, como escritora, ela fizesse bastante sucesso no mundo todo.

Uma das coisas mais agradáveis do livro é que ele é narrado em forma de thriller de aventura, e freqüentemente encontramos passagens de ação, mesmo, como nos capítulos em que Ingrid é obrigada a arrumar suas coisas às pressas para fugir pela selva dos helicópteros do Exército que rondam o acampamento guerrilheiro. Todas essas cenas seriam muito mais empolgantes, claro, se o sofrimento da autora não tivesse sido real, mas apenas um romance.

O ritmo de thriller do livro faz com que os capítulos sejam curtos, mal chegando a 10 páginas cada um. Além disso, a linearidade dos capítulos torna o relato mais parecido ainda com um romance, com início, desenvolvimento e desfecho. Em suma, quem quiser ler Não há silêncio que não termine como uma ficção (coisa impossível, para dizer a verdade), vai acabar encontrando um prato cheio.


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Foto mais conhecida de Ingrid no cativeiro. Ela foi batida durante uma filmagem divulgada em 2008, que mostrou que ela ainda estava viva


Um dos fatos que mais surpreendem durante a leitura é a constatação de que os filhos da autora cresceram bastante enquanto ela era feita prisioneira e passava dificuldades na selva. Mélanie, por exemplo, tinha 16 anos quando sua mãe foi capturada, e só voltou a vê-la aos 22 anos.

Por fim, fiquei extremamente surpreso também ao ler a seguinte passagem, que não deixa de ser curiosa. Tomei a liberdade de reproduzi-la na íntegra. Ingrid estava deitada em sua rede, abatida, ouvindo rádio no acampamento das Farc, até que…

"Tive o prazer de escutar, por acaso, uma reprise das melhores músicas do Led Zeppelin, e chorei de gratidão. 'Stairway to heaven' era o meu hino à vida. Ouvi-la me fez lembrar que eu tinha sido criada para ser feliz. Entre os que me eram próximos, quem quisesse me agradar me dava um disco do Led Zeppelin de presente. Eu tinha todos. Tinham sido o meu tesouro no tempo em que se ouvia música em discos de vinil.

Sabia que, entre os fãs, era malvisto gostar de 'Stairway to heaven'. Tinha se tornado demasiado popular. Os entendidos não podiam partilhar os gostos das massas. Mas nunca reneguei meus primeiros amores. Desde os catorze anos, tinha certeza de que aquela música havia sido composta para mim. Quando tornei a ouvi-la naquela selva impenetrável, chorei ao redescobrir a promessa que desde muito ela me trazia: And a new day will dawn / for those who stand long / and the forest will echo with laughter."

Nem preciso dizer que me senti muito mais próximo dela depois dessa página, não é?


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Ingrid Betancourt (segunda à esquerda em primeiro plano) ao lado de sua mãe e onze militares responsáveis por seu resgate


Conclusão: Não há silêncio que não termine foi uma das melhores aquisições que fiz esse ano. Embora se trate de uma história dramática, é um livro extremamente prazeroso de se ler, cativante, instigante, emocionante. Sem dúvida nenhuma, muitíssimo recomendado.


A seguir, disponibilizei a entrevista de Jô Soares com a autora. Vale a pena conferir!

Todos os direitos reservados
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04 outubro 2010

Filme: O último rei da Escócia

Dirigido por Kevin MacDonald, o drama estrelado por Forest Whitaker e James McAvoy é de arrepiar

O último Rei da Escócia

Mesmo gripado, mesmo com febre, mesmo com dor de cabeça, eu quis porque quis assistir O último rei da Escócia (The last king of Scotland, 2006). Havia comprado o DVD há uma semana mais ou menos, e só estava esperando chegar o final-de-semana para assisti-lo. Agora, quando ele chega, estou doente. Azar.

O dr. Nicholas Garrigan (James McAvoy) é um jovem médico escocês recém-formado que decide viajar para um país exótico e pobre a fim de ajudá-lo no quesito da saúde pública. Ele então faz as malas, sai da Escócia e vai parar em Uganda, país assolado por uma violenta guerra civil, da qual resultou a ascensão do militar Idi Amin Dada interpretado brilhantemente por Forest Whitaker (ganhador do Oscar 2007).

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A aventura começa quando o dr. Garrigan se torna, meio que por acaso, o médico particular do imponente ditador ugandense. Embora a relação que se estabeleça entre os dois seja de grande amizade e intimidade, o jovem médico se vê cada vez mais envolvido numa trama perigosa e cheia de armadilhas, pois Idi Amin governa com mão de ferro o seu ingênuo país e às vezes pega pesado. Então, aos poucos, o amigável ditador vai mostrando os dentes.

Não pretendo falar muito sobre o enredo do filme para não estragar as surpresas. Mas, garanto logo: é um filme arrebatador, imprevisível, chocante, dinâmico. Gostei bastante. Melhor ainda foi saber que o longa é baseado no livro homônimo de Giles Foden – que infelizmente não foi traduzido aqui para o Brasil.

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Eu diria que boa parte da qualidade do filme se deve à atuação de ponta dos atores principais. Claro que a história por si só já é interessantíssima, mas ficou mais interessante ainda com esse ponto extra. Whitaker com o seu olho esquerdo meio fechado é impagável, e a seriedade com que interpreta faz dele o próprio ditador em pessoa. McAvoy, o médico, que eu pensei que fosse um ator casual, fez a diferença também.

O mais surpreendente de tudo é que, muito antes de tomar conhecimento desse filme, eu já estava planejando escrever uma história que se passasse em Uganda, em meio a uma guerra civil que seria testemunhada por dois estrangeiros – no caso, um psicólogo e uma jornalista. Qual não foi a minha surpresa quando vi a sinopse de O último rei da Escócia!

Conclusão: um filme para ser visto, revisto e recomendado.

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Abaixo, disponibilizo o trailer do filme. (Sem legendas, infelizmente.)

09 agosto 2010

Sete anos no Tibet, de Heinrich Harrer

"Meu maior desejo é que este livro possa trazer alguma simpatia por um povo cuja vontade de viver em paz e liberdade recebeu tão pouca solidariedade de um mundo indiferente." (p. 317)

Sete anos no TibetH. Harrer

Eu estava perambulando à toa por uma livraria da cidade, junto com meu irmão, quando me deparei com um exemplar de Sete anos no Tibet (Seven years in Tibet, 1953). O livro foi escrito pelo aventureiro alemão Heinrich Harrer e conta como ele e seu amigo, Peter Aufschnaiter, chegaram e se estabeleceram na capital do Tibet depois de cruzarem boa parte da cadeia montanhosa do Himalaia, fugindo da polícia anglo-indiana e de um campo de concentração na cidade de Dehra Dun. Em Lhasa, capital do Tibet, Harrer acabou se tornando algo que nem ele mesmo poderia prever: professor de Sua Santidade o Dalai Lama.

Assim que li a sinopse na contra-capa do livro, imaginei que ninguém poderia passar por uma aventura maior do que essa. E, como eu sempre fui fã de aventuras, comprei o livro no ato. (Só fui saber da existência do filme depois.) O volume que eu adquiri foi publicado pela editora L&PM Pocket, mas há uma outra, mais elaborada, lançada pela Asa – infelizmente, fora de circuito.

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Sinopse: Heinrich Harrer é considerado um dos maiores alpinistas e aventureiros do século XX. Este livro conta como ele e seu companheiro, Peter Aufschnaiter, chegaram até a Cidade Proibida do Tibet – Lhasa – depois de fugirem de um campo de prisioneiros de guerra na Índia, em 1943. Nessa fuga, que durou quase dois anos pelo interior da Ásia, ambos atravessaram todos os tipos de perigo, ao cabo dos quais foram acolhidos na cidade sagrada de Sua Santidade, o Dalai Lama.

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Poucas coisas me angustiam tanto quanto não acabar de ler um livro grosso nas férias e arrastá-lo para o período de aulas. Foi isso o que aconteceu com Sete anos no Tibet: comprei-o nas férias, comecei a lê-lo nas férias, mas as férias acabaram e agora eu tive de terminá-lo no final-de-semana passado, depois de vários dias parado. O ritmo da leitura foi quebrado e o ânimo para pegar outra vez no livro desaparecera, tudo por conta das inúmeras atividades acadêmicas que eu tenho de enfrentar.

Bem, depois que Heinrich Harrer se juntou a uma expedição de alpinistas que escalariam o monte Nanga Parbat no Himalaia, a primeira coisa que o grupo fez foi ficar uma temporada na Índia para sondar o melhor percurso até a montanha. Acontece que, enquanto eles estavam por lá, encantados com o povo indiano e a beleza natural do país, a 2ª Guerra Mundial rebentou e a Inglaterra declarou guerra à Alemanha em nome de todo o seu império – Índia incluída.

Como Harrer e os outros alpinistas eram alemães, a polícia indiana os prendeu em um campo de concentração e não apresentou a menor perspectiva de tirá-los de lá. Este é o ponto de partida do livro: Harrer narra a sua fuga (cômica) da prisão e a conseqüente jornada que empregou pelo interior montanhoso da Ásia até chegar ao Tibet, junto com um outro integrante da expedição inicial, Peter Aufschnaiter.

Cena do filmeHarrer e Dalai Lama

1º) Cena do filme Sete anos no Tibet ; 2º) Harrer e o Dalai Lama juntos

A linguagem que Harrer utiliza no seu livro pertence àquela classe de linguagens objetivas, cristalinas e encantadoras – ou seja, de coisas muito bem escritas. As palavras são extremamente bem escolhidas e a harmonia das frases embala o leitor. (Eu leio e releio uma mesma frase várias vezes só pelo fato de ela ter sido bem construída. Exemplo: "Alimentado por numerosos riachos vindos do Himalaia, esse rio fica cada vez maior e, à medida que cresce, mais tranqüilo fica o seu curso.")

Existe uma particularidade na narrativa do livro que vale a pena ser comentada: ela não constitui o modelo típico de narrativa de viagem contemporâneo, em que o autor narra a sua aventura como se fosse um thriller de ação. Não. Provavelmente pelo fato de ter sido escrito na década de 50 – uma década de literatura ainda conservadora –, Sete anos no Tibet apresenta uma narrativa totalmente sincera, totalmente despida de qualquer atrativo "colorido". Ali temos Harrer contando a sua história, e nada mais; nada de trechos de tirar o fôlego, nada de suspense, nada de história de amor inserida. Apenas a realidade essencial dos fatos.

Harrer e Dalai Lama (2)

Embora esse modelo "frio" de narrativa seja interessante pelo fato de ser sincero, confesso que fiquei um pouco incomodado. Porque, dada a vastidão quase inconcebível da aventura de Harrer, era de se esperar que o autor fizesse um discurso mais detalhado dos fatos. Nas partes mais instigantes e atrativas da aventura, o relato às vezes me parecia despojado de emoção, panorâmico demais, seco demais, como um diário. E o que poderia ser algo bacana por conta dos detalhes acaba passando despercebido, fazendo com que a história tenha suas partes monótonas. (Vale lembrar que o livro, que possui mais de 300 páginas, não tem diálogos.)

Mas esse é o único "problema" do livro. De um modo geral, adorei lê-lo, e pude ver que Harrer faz jus ao título de "um dos ocidentais que mais conhecem o Tibet". Suas descrições dos costumes e rituais tibetanos são – nesse caso – bem detalhados e esmiuçados, elucidativos.

E esse lance de um aventureiro fugir de um campo de concentração e acabar como professor do Dalai Lama é uma das coisas mais interessantes que já li na vida – é o acaso em prol de uma boa história. Todas as observações que o autor faz do país são transmitidas ao leitor, desde a acolhida inicial até os dias finais de sua estada por lá, quando a China comunista invadiu o território tibetano e Harrer teve de deixar o país.

Conclusão: um livro que, sem dúvida, merece ser lido. Mas encare-o desde já como uma fonte de informações, e não necessariamente como puro entretenimento.

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"A primeira coisa que fazia, todos os dias, era escutar as notícias, e muitas vezes lamentava e pensava em coisas que os ocidentais acham importantes. Aqui, o ritmo do iaque dita o ritmo de vida, e assim tem sido por milhares de anos. Será que o Tibet seria mais feliz se fosse transformado? (…) acelerar o ritmo da existência poderia roubar a paz e o lazer. Não se deve forçar um povo a utilizar novas invenções que estão muito à frente do seu estágio de evolução." (p. 222, grifos meus)

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Abaixo, o trailer do filme Sete anos no Tibet, estrelado por Brad Pitt e dirigido pelo "visionário" diretor Jean-Jacques Annaud. A música fica por conta de John Williams. (Infelizmente, não achei um vídeo legendado…)

24 julho 2010

Misto-quente, de Charles Bukowski

"Que tempos penosos foram aqueles anos – ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade." (p. 7)

Misto-quenteCharles Bukowski

Segundo o calendário que está grudado na porta da minha geladeira, as férias de julho já estão chegando ao fim. E quando as aulas da universidade retornarem, não sei ao certo se vou encontrar tempo para ler alguma coisa relacionada a literatura recreativa – aí é provável que eu não tenha obras sobre as quais escrever aqui.

No entanto, para que o blog não fique abandonado pela falta de artigos, vou escolher aleatoriamente, por semana, um livro da minha estante e traçar alguns comentários sobre ele. Sendo assim, teremos sempre um artigo semanal, independentemente da eventualidade – pelo menos é o que eu espero.

Bem. Iniciando o circuito, o livro escolhido foi o improvável Misto-quente (Ham on rye, 1982), escrito pelo rei underground de Los Angeles, o alemão naturalizado norte-americano Charles Bukowski. Já escrevi sobre um outro livro dele aqui no blog, Factótum (1975).

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Sinopse: O que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929? Ter pela frente apenas a perspectiva de servir de mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas? Esta é a história de Henry Chinaski, o protagonista deste romance que é sem dúvida uma das obras mais comoventes e mais lidas de Charles Bukowski.

Verdadeiro romance de formação com toques autobiográficos, Misto-quente cativa o leitor pela sinceridade e aparente simplicidade com que a história é contada. Estão presentes a ânsia pela dignidade, a busca vã pela verdade e pela liberdade, trabalhadas de tal forma que fazem deste livro um dos melhores romances norte-americanos da segunda metade do século XX.

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"A primeira coisa de que me lembro é de estar debaixo de alguma coisa. Era uma mesa (…)" É assim que começa Misto-quente, o romance que antecede a narrativa de Factótum – embora tenha sido escrito sete anos depois deste – e conta os primeiros passos (infância e adolescência) de Henry Chinaski, o anti-herói alter-ego de Bukowski. Em Factótum, o autor narra as andanças irregulares de Chinaski pelo mundo dos trabalhos manuais árduos, como limpar banheiros, empacotar caixas e carregar caminhões, tudo isso permeado pela vida boêmia que se resumia a porres homéricos e a sexo mais do que casual. Numa vida em que emprego e desemprego andam juntos, o protagonista do livro leva sua vida como pode, tentando conciliar sua realidade áspera com o desejo de ser escritor.

Já aqui em Misto-quente, Bukowski nos conta o que aconteceu com Chinaski antes disso. É quando somos apresentados a tudo aquilo que fez parte da infância do próprio autor: ser pobre, de origem alemã, ter um pai truculento que maltratava filho e esposa, colegas de escola chatos e perversos, um rosto cravejado de horríveis e numerosas acnes, e as iniciações sexuais na juventude – sujas e escatológicas.

Realmente não é nem um pouco difícil encontrar na narrativa de Bukowski – não só em Misto-quente e em Factótum, mas na maior parte de sua obra – uma espécie de espelho refletindo o que o próprio Bukowski era. Seus livros são, quase totalmente, auto-biográficos, mesmo que isso não seja declarado abertamente. Ao contrário do que pensa Pedro Gonzaga, tradutor de Misto-quente, eu tenho a impressão de que os livros de Bukowski retratam fielmente a vida do autor.

Bem, não consigo imaginar os livros do "velho Buk" em outras edições que não sejam as da editora L&PM Pocket, em seus clássicos volumes de bolso. Me parece que uma edição mais elaborada e mais bem acabada dos romances dele iriam contra aquilo que está nas próprias páginas dos livros – iriam contra a simplicidade, a aspereza e a sinceridade que permeiam a obra de Bukowski. Um volume de bolso que você pode carregar para lá e para cá, sem ter muito cuidado, é quase que uma extensão das histórias do "velho Buk", nas quais as personagens vivem vidas desregradas, vulgares, despreocupadas. Sempre pensei isso.

Charles Bukowski 2Charles Bukowski 3

Sim: o cara das fotos de cima é o autor do livro sobre o qual estou falando. A garota da esquerda, com a qual ele está agarrado, é uma figura que ninguém consegue identificar, embora uma boa quantidade de fotos dele com ela esteja no Google (em posições muito mais à vontade, diga-se de passagem). Observando fotografias desse tipo, não deixo de pensar em Henry Chinaski, seu alter-ego literário, principal personagem de Misto-quente e Factótum, também protagonista de vários contos da obra Fabulário geral do delírio cotidiano.

Tudo bem, está na hora de falar da parte interessante; daquilo que faz de Bukowski um escritor muito superior àqueles que retratam apenas sordidez em seus livros. É preciso falar por que gosto dos escritos do autor e por que não o considero tão vulgar quanto ele aparenta ser normalmente.

Há muito tempo, muito antes de eu pensar em escrever esta resenha, dentro de uma livraria no centro da cidade, escutei um diálogo interessante. Me lembrei desse diálogo agora mesmo. Eu folheava Fortaleza Digital, do Dan Brown, quando atentei para uma conversa que se desenrolava na estante da frente entre um grupo de garotas. Dando um jeito de bisbilhotar por entre as estantes de ferro, percebi que uma delas segurava um exemplar de Misto-quente, dizendo: "Poxa, Bukowski! Adoro esse autor. Mas ele é bem… como a gente pode dizer?" Virou-se para uma das amigas. "É bem escatológico, não é?" A outra concordou: "É sim, bem pesado, muito sexo, muita bebedeira." Uma terceira garota, que folheava contos de Tchekhov, questionou: "Se é tão assim, por que vocês gostam?"

"Porque ele escreve muitíssimo bem", respondeu a que segurava o livro, "e seus personagens realmente têm vida." Relembrando esse diálogo, vejo que a garota tinha razão. Como disse um jornalista do New York Times, há verdadeiro sentimento nas pessoas que Bukowski retrata. Os palavrões, a escatologia e os porres homéricos presentes na obra dele escondem algo que raramente se encontra em livros do gênero: o amor e a simpatia pelos desvalidos. Há humanismo em diversas passagens de Misto-quente, dentre elas aquela em que Chinaski, já adulto, encontra um garoto mexicano dentro de uma casa de jogos, nas últimas páginas do livro.

Conclusão: ninguém é obrigado a gostar de Charles Bukowski, mas, enfim, ele é um escritor que merece a boa fama que tem.

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Abaixo, o trailer do filme Factótum, estrelado por Matt Dillon e Lili Taylor.

09 julho 2010

A montanha e o rio, de Da Chen

"(…) pelas breves noções de história que eu vinha adquirindo nas minhas leituras noturnas, sabia que (…) o poder nunca mudava de mãos sem ficar manchado de sangue." (p. 90)

A montanha e o rioDa Chen

Ontem pela manhã eu finalizei o que talvez tenha sido a minha penúltima leitura de férias: A montanha e o rio (Brothers, 2006), escrito pelo chinês radicalizado norte-americano Da Chen. O autor demorou nada menos que oito anos para conceber e redigir o romance, e no final das contas acabou arrecadando críticas elogiosas do Boston Globe, USA Today, San Francisco Chronicle e outros suplementos literários.

O livro foi lançado aqui no Brasil pela editora Nova Fronteira, que, por sinal, fez um ótimo tratamento na capa e no miolo. A tinta brilhosa que usaram no título da frente, nos caracteres chineses amarelos e na lombada não descascam, por mais que a gente manipule o livro esfregando os dedos nessas regiões. (Diferentemente do que aconteceu com o meu exemplar de Estado de medo, do Crichton, que a uma altura dessas já está totalmente sem título aqui na minha estante.)

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Sinopse: No auge da Revolução Cultural chinesa, Ding Long, um jovem e poderoso general, gera dois filhos. Um deles, legítimo. O outro, nascido de uma jovem camponesa que se atira do alto de uma montanha pouco depois do parto. Tan cresce em Beijing, cercado de luxo, carinho e conforto, ao passo que Shento é criado nas montanhas por um velho curandeiro e sua esposa, até que a morte do casal o leva a um orfanato onde passa a viver sozinho, assustado e faminto.

Separados pela distância e pelas condições de vida, Tan e Shento são dois estranhos que crescem ignorando a existência um do outro, até que suas vidas se dirigem, de forma emocionante, para um ponto de colisão.

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Não sei se começo esta resenha falando primeiro dos pontos negativos do livro e depois dos positivos, ou vice-versa. Em retrospecto, acho que eles estão relativamente balanceados aqui, e por isso não sei de quais falo primeiro. Como Da Chen é estreante em literatura de ficção, acho normal – além de inevitável – que seu primeiro romance tenha aspectos negativos: pontos clichês, incoerências, linguagem inadequada em algumas passagens etc. Em suma, aspectos negativos que, assim espero, serão corrigidos nos seus futuros romances.

Bem, já que comecei falando do lado ruim do livro, não me resta outra coisa senão continuar. E o primeiro ponto que eu gostaria de comentar aqui é uma espécie de defeito na linguagem da narrativa; difícil explicar, mas me pareceu que as palavras e expressões usadas por Da Chen nos primeiros capítulos soaram incoerentes, fora de contexto, como se a história se passasse em um país ocidental dos dias de hoje, e não na China comunista do final do século passado. Enfim, tive uma sutil sensação de que a linguagem não combinava com a carga histórica da obra.

Além disso, ainda falando em narrativa, me pareceu também que o livro seria melhor aproveitado se fosse escrito todo em terceira pessoa. Tudo bem, a narrativa das personagens em primeira pessoa se alternando nos capítulos é bacana, mas penso que os detalhes do enredo ficariam melhor explorados se a escrita fosse feita por um narrador observador onisciente, o que contribuiria ainda para dar uma atenção maior às personagens secundárias.

Uma coisa que pode entediar o leitor em A montanha e o rio são as passagens em que se descreve os trâmites burocráticos e políticos das operações de Tan, vovô Long e Shento. Na verdade isso não é um defeito do livro, obviamente, uma vez que é fundamental para o desenrolar da história, mas ainda assim essas passagens me fizeram bocejar algumas horas. O engraçado é que eu li coisas potencialmente bem mais "enfadonhas" em O Palácio de Espelho, mas não senti o menor enfado aí – acho que o autor desse livro soube tratar a coisa de modo mais interessante.

Para acabar a infeliz lista dos aspectos negativos do livro, resta apenas falar do enredo do romance em si, que é um tanto clichê. Irmãos que crescem separados – um legítimo; outro ilegítimo, buscando vingança contra o pai que o rejeitou –, apaixonados pela mesma moça, que fica indecisa quanto a quem ceder. Os irmãos, por conta da educação e das oportunidades que tiveram na vida, acabam virando inimigos mortais um do outro. Etc., etc. Não parece um pouco batido demais? Folhetinesco? Parece, mas o clichê presente no livro não é intragável, pelo contrário: algumas vezes passa até despercebido.

Praça Tiananmen, em Beijing, citada com freqüência no livro

O.K., agora é a hora dos pontos positivos do livro. É até bom acabar a resenha falando sobre eles, porque aí o leitor fica com uma impressão boa do romance. Em primeiro lugar, como sempre acontece em obras épicas, é agradável ir identificando os acontecimentos históricos reais que perpassam o enredo porque, além de o leitor ter uma detalhada aula de História, o livro se torna bem mais verossímil quando é inserido nesses contextos verídicos. É o caso de A montanha e o rio. Me surpreende a capacidade de alguns autores de conceber uma história com base em eventos reais, moldando suas personagens e a sua trama a partir dessas premissas.

Embora eu tenha apontado aquele defeito com a linguagem da narrativa no começo, não sou tão chato quanto pareço e digo que ela é extremamente fluida, agradável de ler, e o livro toma ares mais dinâmicos, envolventes, a partir dela. Outra coisa legal trabalhada no romance – e isso parece ter sido a preocupação central de Da Chen – é o sentimento do povo de estar sendo ludibriado e ter a liberdade roubada por um governo que age desonestamente em benefício próprio, assassinando líderes estudantis contrários à tirania reinante dos militares. A sensação que o leitor tem de estar participando das reuniões estudantis secretas, anti-governistas, é forte e bacana.

Por fim, confesso que li as últimas dezenas de páginas com tanta avidez quanto foi possível, na velocidade mínima necessária para pelo menos captar o que estava sendo passado. É um final elétrico, que deixa o leitor ligado. Sem brincadeira, o dinamismo do final é de tirar o fôlego.

Conclusão: para quem gosta de épicos que envolvem muita conspiração e manobras militares, um prato cheio. Para quem é indiferente, vale a pena dar uma olhada.

26 junho 2010

O Palácio de Espelho, de Amitav Ghosh

"Uma vez conquistada, sua lealdade era dada com sinceridade, sem nenhuma daquelas condições não-expressas com que as pessoas geralmente se protegem da traição." (p. 57)

O Palácio de Espelho Amitav Ghosh

Aproveitando que a tarde de hoje estava silenciosa e fria, ótima para se sentar em uma poltrona, eu finalizei a leitura do romance épico O Palácio de Espelho (The Glass Palace, 2001), escrito pelo indiano Amitav Ghosh, autor também dos livros Maré voraz e O Cromossomo Calcutá.

Adorei. Simplesmente não conseguia desgrudar os olhos das páginas. Como diria um jornalista do suplemento The Times: "De tirar o fôlego. Não consigo imaginar outro escritor contemporâneo com quem seria tão estimulante ir tão longe."

Sendo assim, hoje eu não posso deixar de escrever uma resenha relativamente grande…

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Sinopse: Romance épico do indiano Amitav Ghosh, O Palácio de Espelho segue os passos de um menino órfão e pobre, Rajkumar Raha, surpreendido em meio à invasão britânica da Birmânia, em 1885. Às vésperas da expulsão da Família Real birmanesa, o menino se descobre apaixonado por uma bela pajem da rainha. Numa arrebatadora história de amor e guerra, a trama acompanha a trajetória de três famílias cujos destinos se entrelaçam, numa saga familiar que nos transporta a culturas distantes e nos transforma em testemunhas do fim da monarquia birmanesa e da ascensão e queda do império britânico.

NOVO! Leia capítulos do livro aqui neste link.

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Como eu já disse anteriormente, em resenhas passadas, Ghosh é um dos meus escritores preferidos, desde que o descobri no início do ano através do ótimo Maré voraz. Ele é dono de uma linguagem cristalina, refinada, poética e profunda (sim, todos esses adjetivos juntos) e, além disso, detém um poder imaginativo fora de série.

A trama que ele constrói e desenvolve em seus livros é sempre tão verossímil, tão coesa e ao mesmo tempo tão densa, que é como se ele já soubesse desde a primeira página tudo o que quisesse colocar nas próximas – como se a história já viesse previamente montada em sua cabeça e ele apenas a passasse para o papel. Seus personagens têm vida própria e quase ouço as vozes dos diálogos vindo do livro; quanto às paisagens narradas e os lugares evocados, quase os vejo diante dos meus olhos.

Existe ainda uma característica peculiar muito interessante presente nas obras desse indiano, pelo que eu pude perceber: todos os seus livros baseiam-se em extensos episódios históricos, e o que conduz a trama em larga medida são esses eventos verídicos que ocorreram em algum lugar do planeta, em algum momento da história da humanidade. No caso de O Palácio de Espelho, esse episódio histórico é a invasão britânica à Birmânia, no final do século XIX; o sucessivo sistema colonial; a Segunda Guerra, anos depois; e, por último, a ditadura implantada em Myanmar.

Porque a história se passa em vários lugares exóticos e diferentes (Índia, Birmânia e Malásia principalmente), não consigo imaginar os romances de Amitav Ghosh sem um mapa. Certamente a maioria dos seus leitores também não, e é por isso que o autor sempre nos brinda com um mapa bem legal no início de todos os seus romances. Eles são de uma necessidade mesmo enorme; sem eles, eu me perderia facilmente na geografia complicada daqueles países do sul da Ásia. Eu sempre parava a leitura quando surgia um nome de cidade desconhecido, para então recorrer ao tal mapa. Aí está o dito cujo:

Mapa que acompanha o livro

O enredo de O Palácio de Espelho é bem grandioso e detalhado, embora na sinopse da contracapa as editoras foquem apenas a questão do romance entre Rajkumar (personagem principal?) e Dolly, a fiel e belíssima pajem da Rainha. O escopo é muito maior do que o que essa história de amor aparenta oferecer; na verdade, ela é tratada apenas nas primeiras das sete partes. Depois, o livro toma outros rumos. Antigos dramas chegam ao fim e novos conflitos surgem, para serem resolvidos mais tarde, quando então novas tramas surgirão.

Aliás, esta é uma das melhores sensações que temos quando lemos um livro longo: sentimos o tempo passando, o peso das decisões, as personagens amadurecendo, as coisas ao redor sumindo e se transformando. Lembramos dos episódios passados já com certa saudade, nos simpatizamos com personagens, sentimos profundamente a perda de alguém. E os episódios narrados às vezes se situam tão distantes um do outro que nos pomos a pensar: "Como fulana era tola nessa época!" ou "Nossa, beltrano nem imaginava que isso poderia acontecer mais lá na frente!"

O Palácio de Espelho também se torna um romance particularmente interessante porque possui várias passagens surpreendentes. Ghosh é bom em dar reviravoltas e em espantar seus leitores. Fiquei muito surpreso nos momentos finais do livro, diga-se de passagem. Muito bons.

Curioso… navegando agora pela Internet, eu descobri umas fotos de Daw Aung San Suu Kyi, uma ativista política extremamente influente em Myanmar (por sinal, recebeu o Nobel da Paz em 1991). Ela aparece em uma passagem de O Palácio de Espelho, e seu discurso é ouvido na ocasião por duas personagens.

Shepard-Fairey-Aung-San-Suu-Kyi_thumb Aung San Suu Kyi [2]

Curiosidade: a música Walk On, do U2, foi feita em homenagem a ela.

Infelizmente, o autor de O Palácio de Espelho é pouco difundido aqui no Brasil, e os seus livros sequer chegam ao conhecimento do público como um todo. Tiro por mim: se não fosse o acaso, eu jamais entraria em contato com Maré voraz.

Conclusão: Amitav Ghosh é um escritor genial, e O Palácio de Espelho é, com certeza, a sua obra-prima. Não é apenas um livro que você lê: é um universo no qual você mergulha.

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Abaixo, um trecho que descreve a ditadura de Myanmar:

"A cada ano os generais pareciam ficar mais poderosos, enquanto o resto do país se enfraquecia; os militares eram como íncubos, sugando a vida de seu hospedeiro. (…) morreu na prisão de Insein, em circunstâncias que não foram explicadas. Seu corpo foi levado para casa com marcas de tortura e a família não teve direito a um enterro público. Um novo regime de censura foi instalado, desenvolvido a partir dos alicerces do sistema deixado pelo velho Governo Imperial. Todo livro e revista tinha de ser apresentado a um Comitê de Exame de Imprensa para ser lido por um pequeno exército de capitães e majores." (p. 558)

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Por fim:

Aí embaixo eu relacionei um vídeo caseiro do Youtube, que faz uma propaganda colorida do mais novo romance do autor, Mar de papoulas. Uma vez que o vídeo é português lusitano, o título aparece como Mar de papoilas. Como todos os outros livros de Ghosh, este recebeu vários elogios dos mais diversos periódicos literários do mundo. Vale conferir.

(Lembramos que Mar de papoulas será lançado aqui no Brasil pela Alfaguara, com data prevista para fevereiro de 2011. Informação exclusiva!)