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29 maio 2010

Na natureza selvagem, de Jon Krakauer

"A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências, e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante (…)" (p. 68)

Na natureza selvagem Jon Krakauer

Como eu não estou com nenhum artigo sobrando dentro da gaveta e preciso atualizar o blog pelo menos uma vez por semana, decidi escrever agora uma resenha sobre um livro escolhido a esmo da minha estante. E o livro sorteado foi nada menos que Na natureza selvagem (Into the wild, 1996), de autoria do jornalista norte-americano Jon Krakauer.

Como geralmente acontece na longa história de amizade que o cinema tem com a literatura, aqui a aventura do andarilho Christopher Johnson McCandless foi resgatada por conta do filme homônimo dirigido por Sean Penn, estrelado por uma penca de astros, lançado em 2007 e alvo de muitas críticas elogiosas.

Li o livro três vezes.

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Sinopse: Depois de concluir a faculdade com brilhantismo, Chris McCandless, jovem americano saudável e de família rica, doa todo o dinheiro que tem, abandona o carro e a maioria de seus pertences, adota outro nome e some na estrada, sem nunca mais dar notícias aos pais. Dois anos depois, aparece morto num lugar ermo e gelado do Alasca.

NOVO! Leia capítulos do livro aqui neste link.

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"Viver no mato não é um piquenique", relata o eletricista sindicalizado Jim Gallien, o último homem (de vários) a dar carona para Chris – ou, como o próprio Chris se chamava, Alexander Supertramp.

Para muitas pessoas, permanece um mistério o que levou Alex a trilhar os "caminhos da terra" sem o mínimo de preparo, sem um mapa, uma bússola ou um cantil de água. Aparentemente, é mesmo um mistério. Bem logo depois de terminar a faculdade com notas altíssimas, tendo um futuro promissor pela frente, McCandless (vamos usar o seu nome verdadeiro) literalmente queimou a sua identidade, pegou o seu amado carro Datsun amarelo e partiu para o oeste, deixando para trás os pais preocupados e a irmã sem um sólido no qual se agarrar.

Parece um mistério que Chris tenha abandonado tudo e feito isso, mas na verdade não é nada que foge à lógica. Eu não acho. O que está em jogo é a tolerância de Chris para aceitar o absurdo da vida cotidiana, tolerância essa que era baixíssima ou inexistente no rapaz. Ele, romântico típico, forte adepto de Thoreau e Tolstói, não aceitava o que nós vemos todos os dias no noticiário da noite (assassinatos, bolsa de valores, última moda nos salões de Paris) e simplesmente decidiu deixar todo este mundo de aparências e falsos valores para trás. Coragem? Eu diria "força de vontade". Mas, acima de qualquer coisa, não é uma atitude absurda.

O livro de Jon Krakauer remonta toda a trajetória de Chris (desde Atlanta até o Alasca) a partir de depoimentos prestados pelas pessoas que participaram da odisséia do rapaz, incluindo a família em Chesapeake Beach, o casal hippie de meia-idade que McCandless encontrou pelo caminho, Wayne, gerente de um elevador de cereais no qual o jovem trabalhou por algum tempo, dentre outras figuras atípicas. O autor recolhe todas as falas destas pessoas e, dessa maneira, vai montando um quebra-cabeça cuja história parece ser contada espontaneamente, na hora.

E a narrativa de Krakauer avança assim, entre os discursos das pessoas diretamente envolvidas, com evidências, com suposições, salpicando com elementos característicos de romance o seu jornalismo despreocupado. Vale lembrar que um ponto interessante na construção do livro foi o recurso de usar, assim como no filme, uma cronologia sem contornos nítidos, em que os fatos vão e vêm numa sucessão de flashbacks, em que passado e presente se misturam.

Por fim, para quem ainda não entrou em contato com a história de McCandless, eu aconselho primeiro a ver o filme, e depois ler o livro. Assim, você parte para a narrativa já associando as pessoas e os lugares descritos com as cenas do longa-metragem, quem sabe ainda ouvindo no MP4 a excelente trilha sonora de Eddie Vedder. O resultado, como um todo, é bem agradável.

Encarte do DVD 

Conclusão: muito recomendado, principalmente para os que de vez em quando entram em rixa com a sociedade.

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Abaixo, eu disponibilizo o ótimo trailer do filme.

Todos os direitos reservados

21 maio 2010

Infância, de J. M. Coetzee

"O coração dele é velho, sombrio e duro, um coração de pedra. Esse é o seu segredo desprezível." (p. 113)

Infância J. M. Coetzee

Hoje pela manhã, antes de sair para almoçar um delicioso peixe frito com minha melhor amiga, eu finalizei a leitura do romance Infância (Boyhood – scenes from provincial life, 1997), cujo autor, o africânder John Maxwell Coetzee, recebeu o Nobel de Literatura em 2002 pelo conjunto de sua obra.

Coetzee é o segundo Nobel que leio. O primeiro foi Saramago ("Saramargo", como diz Natália, minha amiga), com os romances Ensaio sobre a cegueira (1995) e Intermitências da morte (2005). Gostei dos dois, mas o estilo do português não me animou muito, e acabei deixando os demais para a outra vida, se é que ela existe. (Azar o meu se não existir.)

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Sinopse: 'Infância' narra em terceira pessoa o processo de formação da personalidade de John, um jovem cuja infância é solapada pela presença de um pai falastrão e perdulário, uma mãe apática e a realidade hostil e violenta da África do Sul pós-Segunda Guerra Mundial. Refugiado nos livros e na introspecção, John procura sobreviver à própria infância.

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Infância é o primeiro livro da trilogia ficcional autobiográfica que se segue com Juventude (2002) e Verão (2009), este último lançado recentemente pela Cia. das Letras. Só li o primeiro, e ainda estou pensando em ler os outros. Talvez valha a pena. Pelo que pude perceber através da leitura de Infância, Coetzee é um daqueles autores que, embora não tenham uma narrativa sublime, pelo menos fisgam o leitor de uma maneira diferente e fazem com que ele se fixe nos seus livros.

Ainda que as primeiras páginas não tenham me atraído da forma como eu esperava, me identifiquei bastante com inúmeras passagens da história. São coisas que aconteceram na minha infância e também na de Coetzee, e que estão lá no livro, retratadas todas de uma maneira fria, imparcial e quase masoquista. Coetzee sofrendo com os colegas truculentos da escola, Coetzee enfrentando obstáculos para tomar a decisão de que religião seguir, Coetzee tendo dificuldades de relacionamento com a família. Com essas e com outras passagens é inevitável o leitor se identificar.

Um ponto forte da obra é a sinceridade com que o autor conta aquela infância: uma criança relativamente mimada, detentora de poderes maiores do que o normal, que, embora seja ocasionalmente rude com a mãe, o pai e o irmão, sempre se vê em apuros fora de casa. O tipo de criança que tem imponência sobre o lar, mas, fora dele, está sujeita às outras crianças.

Algo interessante de se notar é que, ainda que seja comum em livros do gênero "desenvolvimento da puberdade", neste as reflexões sobre sexo são mínimas. Coetzee parece muito mais inclinado a relatar uma infância em que o principal marco foi a falta de referências dentro de uma sociedade, e não pensamentos povoados por delírios eróticos e atos masturbatórios, como geralmente encontramos em obras cujo objetivo é narrar a saga pubertária de alguém.

Quem conta a história é um narrador em terceira pessoa distante e onisciente, impiedoso, sempre pondo os verbos no presente. Uma das coisas bem originais e interessantes do livro é que o protagonista é sempre referido como "ele", nunca pelo nome, John (mencionado apenas uma única vez durante um diálogo). Isso prova que, quando um escritor quer ser excêntrico e inovar na maneira de contar histórias, pode fazê-lo sem grosseria, de modo fluido, cujo ritmo o leitor acompanha numa boa. Mas o escritor tem que ser realmente bom para tanto.

Outra característica muito chamativa de Infância é a quase ausência de diálogos. Alguém poderia parafrasear Alice e dizer: "De que servem livros sem gravuras ou diálogos?", mas aqui Coetzee nos mostra outra excentricidade que ele faz o leitor acompanhar sem sofrimento. Cedo você descobre que o diálogo não é exatamente o melhor que o livro oferece; descobre que o melhor está nas descrições dos sentimentos e dúvidas do protagonista, naquilo que ele faz e que um dia você também fez quando criança.

A melhor parte, sem dúvida, é quando ele está na fazenda Voëlfontein!

Conclusão: Um livro que vale a pena ser lido.

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Natália parte uma posta do peixe com o garfo, olha para mim e pergunta: "Você vai ler os outros dois, Juventude e Verão?"

"Talvez", respondo com o copo de refrigerante na mão. "Esse que eu acabei de ler foi um livro muito bom, mas ainda estou pensando no que fazer com o restante da trilogia. Para ser sincero, nem sei que qualificação dar-lhe no Skoob. Estou em dúvida entre 4 estrelas e 5 estrelas."

Ela franze o cenho. Pensa um pouco com os olhos voltados para o prato, e depois os põe sobre mim, sorrindo. Vai dizer algo importante, imagino. E diz mesmo:

"Se você está na dúvida, é melhor colocar mesmo 4 estrelas. Se fosse para colocar a nota máxima, você não estaria pensando nisso."

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Abaixo, disponibilizo o trailer do filme Desonra, baseado no livro homônimo de Coetzee. O filme é estrelado por John Malkovich e, pela prévia, eu me interessei bastante. (Atenção para a ótima fotografia geral da película.)

Todos os direitos reservados.

09 abril 2010

Vale a pena ler de novo: Álbum de Viagens, de Michael Crichton

“Sentia uma real necessidade de rejuvenescimento, de experiências que me afastassem das coisas que fazia habitualmente, da vida rotineira que levava.” (p. 9)

Principal característica do post: conversa descontraída.

Álbum de Viagens Michael Crichton

O quadro Vale a Pena Ler de Novo é um tópico novo do blog que se destina a mostrar às pessoas (leia-se: meus amigos) aqueles livros que eu li e que são interessantes para uma releitura posterior. Existem vários títulos por aí afora que demandam uma nova leitura, seja para uma melhor assimilação do conteúdo ou simplesmente porque o leitor o achou muito bom e quer lê-lo uma segunda vez. O objetivo do Vale a Pena Ler de Novo é servir de guia para mostrar que livros são esses e falar um pouco sobre a minha experiência pessoal com eles.

Partindo do princício de que os blogs são espécies de diários virtuais, tão pessoais, eu devo bater na tecla que diz que os livros aqui expostos são expostos por conta do meu gosto pessoal, e não necesseriamente fazem parte dos títulos que eu julgo universalmente clássicos.

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Eu tenho o costume de dizer para os meus amigos e familiares que foi Michael Crichton quem me ensinou a ler livros de literatura. Como eu já andei dizendo por aqui, Jurassic Park foi o primeiro livro “para adultos” que li, e ele foi o bastante para que depois viessem, em rápida sucessão, os outros volumes do autor: Mundo Perdido, Linha do Tempo, Esfera, Estado de Medo, Next, Um Caso de Necessidade, etc.

Pode-se dizer que é por conta de Michael Crichton que, até hoje, eu gosto de livros de aventura. Certas coisas surgem na nossa infância e não mudam nunca. Se eu pegar um livro hoje e constatar que ele tem boas doses de aventura, eu logo associo o gênero a Crichton.

Li Álbum de Viagens pela primeira vez quando tinha 16 anos, e posso dizer que ele mudou uma parte significativa da minha filosofia de vida. (Que filosofia de vida um cara de 16 anos pode ter? Mas tudo bem.) Naquela época, todos os relatos de Crichton – suas idas ao Oriente, seus mergulhos em águas de Bornéu, suas escaladas em pirâmides astecas no México, suas jornadas nas savanas africanas – tudo isso abriu meus horizontes até então diminutíssimos, resumidos às paredes do meu quarto e da sala de aula.

Eu lia o livro avidamente e, à medida que o lia, via quão insignificante a minha vida iria continuar sendo até que eu tomasse a resolução de não deixar que ela seguisse esse curso monótono de rotinas e hábitos. Essa idéia persiste até hoje dentro da minha cabeça, e posso dizer que ela veio junto com esse livro. Lendo as excurssões perigosas de Crichton – que já era meu ídolo literário há seis anos – eu sentia invejas e ansiava por ter uma existência cambiante como a dele.

Inclusive, embriagado pelo desejo de viver experiências novas e arriscadas, cheguei a convidar minha namorada da época para uma excurssão até o litoral do estado via ônibus, onde daríamos um passeio tal qual o passeio de Crichton pelas praias de Cingapura. (O plano obviamente não deu certo, por vários motivos; dentre eles, o da consciência de que uma viagem de ônibus não seria nem um pouco empolgante).

Embora hoje eu continue achando que as aventuras de Crichton realmente foram empolgantes e epifânicas, passei a interpretá-las por um outro ângulo (isso depois da releitura do livro). Vejo-as agora como viagens feitas por um escritor de best-sellers bem sucedido e cheio da grana, que, junto com um punhado de outros turistas estribados, brincava de Indiana Jones. Pode parecer uma visão talvez cruel e sem dúvida decepcionante, e vocês podem ainda estar se perguntando “Se Marlo Renan se decepcionou em parte com a releitura do livro, por que a recomenda?” mas a verdade é que, mesmo com o defeito que indiquei no começo deste parágrafo, uma segunda leitura de Álbum de Viagens vale a pena.

Eu poderia citar vários motivos para explicar isso, porém vou me deter apenas aos principais: (a) Crichton é dono de uma escrita cristalina e perfeita, e dar uma reolhada no jeito como ele escrevia não é demais, não mesmo. (b) O livro não conta apenas as peripécias do autor ao redor do mundo, mas também mostra o que Crichton pensava durante a universidade de medicina, como lidava com os professores carrascos e, o mais legal de tudo, como ele abandonou a faculdade perto do final para se tornar escritor. (c) Essa é a obra mais estritamente pessoal dele. E isso, por si só, é impressionante, porque Michael Crichton era autor de best-sellers conhecidíssimos e era tido como alguém destituído de vida pessoal. É como se, nos dias de hoje, um Dan Brown da vida lançasse um livro falando sobre suas experiências pessoais e fosse totalmente sincero contando-as.

Mesmo achando agora que as excursões de Crichton eram, na verdade, “passeios” de alguém rico, a releitura do livro Álbum de Viagens vale a pena para se deparar outra vez com as belas lições que o autor extraía de cada experiência.

Acho que a idéia é essa, mesmo.

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“Freqüentemente, tenho a impressão de que busco uma região distante no mundo para me lembrar de quem realmente sou. Não há qualquer mistério sobre a razão dessa atitude. Deslocado do seu ambiente habitual, privado de seus amigos, de suas rotinas diárias, de sua geladeira cheia de comida, de seu armário cheio de roupas – destituído de tudo isso, você é compelido à experiência direta.” (p. 10)

21 março 2010

102 Minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn

“E depois viram as pessoas caindo das janelas, jogando-se para fora e então no ar, em direção ao solo.” (p. 36)

102 Minutos Vôo 175 se choca contra a Torre Sul

Pela manhã do dia de hoje, eu finalizei a leitura do livro jornalístico 102 Minutos – A História Inédita da Luta pela Vida nas Torres Gêmeas (102 Minutes – The Untold Story of the Fight to Survive inside the Twin Towers, 2005), que, como o próprio subtítulo sugere, narra a catástrofe que se abateu sobre Nova York no dia 11 de Setembro de 2001, conseqüência de atentados terroristas islâmicos.

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Sinopse: Entre o instante em que o primeiro avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center, às 8h46 do dia 11 de setembro de 2001, e o momento em que a mesma e última torre desabou, passaram-se 102 minutos. É este intervalo de tempo que os jornalistas Jim Dwyler e Kevin Flynn, repórteres do New York Times, recriam nesse livro eletrizante.

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Como o livro retrata a história real e dramática de milhares de pessoas que estiveram envolvidas no incidente, não cabe ao blog julgar a qualidade “literária” da obra; em outras palavras, não tem sentido dizer se o livro prende a atenção do leitor ou se o estilo de escrita é interessante, por exemplo. Deixo esse tipo de escrutínio apenas para obras de ficção, que podem ser avaliadas segundo esses padrões porque são fruto unicamente da imaginação do autor.

102 Minutos narra, sim, de modo impecável, com uma surpreendente avalanche de detalhes, toda a movimentação dentro das Torres Gêmeas antes, durante e depois dos ataques terroristas. O livro nos mostra o tráfego das pessoas – funcionários de escritórios, funcionários do prédio, resgatadores do corpo de bombeiros, agentes da polícia local – desde momentos antes de o avião comercial se chocar contra a Torre Norte do complexo WTC, até momentos depois de a última torre desabar, transformando o cenário de Nova York e selando a morte de 2.749 pessoas.

O texto traz ainda uma boa e conveniente gama de informações básicas que, creio eu, os leitores interessados no assunto devem saber: a companhia que era proprietária dos edifícios na época, a repercussão que o incidente de 1993 teve sobre o de 2001, o descaso que muitas autoridades deram à questão da segurança do World Trade Center e a absoluta falta de comunicação entre bombeiros e policiais de Nova York, na hora de socorrer às vítimas.

Aliás, Dwyer e Flynn frisam bastante esse aspecto da falta de interação comunicacional entre as agências de policiais e bombeiros durante todo o desenrolar da catástrofe, mostrando o quanto polícia e corpo de bombeiros carecia de um sistema de comunicação eficiente e coordenado na época. A importância dada a essa questão, no livro, serve de aviso e alerta para que as autoridades tomem melhores precauções no futuro e evitem – ou tentem ao máximo evitar – desastres futuros.

102 Minutos é uma leitura indispensável para quem se interessa pelo assunto e, também, para quem ficou impressionado pelas quedas das Torres Gêmeas, como eu.

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Abaixo, transcrevo um trecho marcante do livro.

“Mais tarde, as pessoas nos andares superiores da Torre Norte passaram a se retirar para as salas e a selar as portas, mas a fumaça era inclemente, empurrava-as contra as janelas, que não podiam ser abertas. À medida que fumaça e fogo se espalhavam pelos edifícios, multidões de pessoas ligavam para o 911 pedindo permissão para quebrar as janelas. Não, diziam os atendentes, isso vai piorar ainda mais a situação. Então, elas chamavam de novo para dizer que a situação estava pior. Do outro lado da sala, relatavam, os outros já quebravam as janelas. E estavam saltando.” (p. 156)

30 janeiro 2010

Maré Voraz, de Amitav Ghosh

“(…) as palavras são como o vento que faz ondular a superfície da água. O verdadeiro rio corre por baixo, sem ser visto nem ouvido.” (p. 357)

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Hoje pela noite, depois de voltar de uma cerimônia literária da qual não fui o vencedor do prêmio maior, eu finalizei a leitura do romance Maré Voraz (The Hungry Tide, 2005), escrito pelo indo-americano Amitav Ghosh, que se revelou um grandessíssimo contador de histórias para mim nessas férias.

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Sinopse: Em Maré Voraz, o escritor indiano Amitav Ghosh cria um universo fascinante ao retratar o conflito entre a civilização e o mundo selvagem, através de uma Índia desconhecida e perigosa. Em meio a uma exótica região formada por um labirinto de ilhas pequenas e selvagens, apelidadas de Sundarbans, três pessoas de mundos diferentes — uma pesquisadora, um jovem pescador e um empresário indiano — irão se encontrar, com interesses diferentes e resultados imprevisíveis.

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Maré Voraz entrou para a gloriosa lista dos livros que me encantaram profundamente durante a leitura e que, sem restrições, recomendo a todos. E essa lista não é tão grande assim: tenho certos critérios que fazem alguns romances bons ficarem do lado de fora.

A primeira coisa que me encantou no livro de Ghosh foi o estilo de escrita que ele adotou, e que parece adotar em todos os seus textos: leve, tradicional, sem invencionismos literários, do tipo prático que, sem rodeios, vai direto ao assunto – mas que, ainda que seja bem objetivo, não perde a elegância. Ghosh tem a invejável capacidade de escrever de uma maneira limpa, charmosa, fazendo com que o leitor não desgrude os olhos das páginas pelo simples fato de elas serem muito bem escritas.

Como se o seu impecável estilo de escrita não bastasse, Ghosh conseguiu reunir, em Maré Voraz, uma miríade de aspectos sociais, políticos e ambientais de forma incrivelmente atraente. Ele imerge esses assuntos em uma história repleta de aventura e suspense, mesclando ficção com fatos verídicos e, no final das contas, dando fruto a uma trama intrincada que é atraente até em seus mínimos detalhes.

Outro feito notável de Ghosh, no romance em questão, foi o de conseguir transformar uma região longínqüa da Índia em algo particularmente interessante e universal. A região das Sundarbans abriga um arquipélago com inúmeras ilhas de nomes e costumes exóticos para nós, mas, apesar da aparente incompreensão que disso poderia surgir, lá está Amitav Ghosh a nos explicar detalhe por detalhe tudo o que cerca o lugar – incluindo os costumes do seu povo, a origem dos nomes complicados e outras coisas.

Fiquei particularmente interessado no incidente de 1970 em Morichjhãpi, que é descrito no livro e que faz a história parecer mais verossímil ainda, isso porque alguns dos personagens se envolvem com o acontecimento. Um enorme grupo de refugiados que, por causa de um bombardeio, foram expulsos das regiões da fronteira, caminha a esmo pelo país das marés até resolver se fixar em uma ilha isolada e desabitada: Morichjhãpi. Nela, os refugiados começam a construir a sua nova sociedade, limpa e organizada; mas, infelizmente, acabam criando problemas com o governo local, pois a área é reservada à preservação ambiental. Daí resulta-se uma violenta guerra civil, da qual um personagem de Maré Voraz participa ativamente.

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Fiquei com vontade de ler outros títulos do autor – na verdade, os únicos restantes, que foram publicados aqui no Brasil –, chamados O Palácio de Espelho e O Cromossomo Calcutá. Mas, antes, quero confirmar se Ghosh realmente repete a dose de dinamismo presente no livro que acabei de ler.

“(…) O que ele queria não era diferente do que todos os sonhadores sempre quiseram. Queria construir um lugar onde ninguém explorasse ninguém, e onde as pessoas vivessem juntas sem distinção e diferenças mesquinhas de classe. Sonhava com um lugar onde homens e mulheres pudessem ser lavradores de manhã, poetas à tarde e carpinteiros à noite.

Kanai começou a rir.

”E olhe o que ele conseguiu – disse. – Estas ilhas devoradas por ratos.” (p. 65)

29 dezembro 2009

O Prisioneiro, de Erico Verissimo

“No fundo, todos somos atores. Representamos vários papéis ao mesmo tempo. Uns mal, outros bem.” (p. 121)

O Prisioneiro Erico Verissimo

Hoje pela noite, depois de dar uma volta a pé pela cidade e voltar para casa com uma latinha de Pepsi na mão, eu finalizei a leitura da novela nacional O Prisioneiro (1967), escrita pelo romancista gaúcho Erico Verissimo durante a intervenção dos Estados Unidos da América na Guerra do Vietnã.

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Sinopse: Envolvido numa guerra fratricida em terra estrangeira, um tenente prestes a voltar a seu país presencia uma cena dramática: uma bomba destrói o bordel onde ele estava poucos momentos antes e mata a moça por quem se apaixonara. Um dos terroristas, capturado logo depois pelas forças aliadas, é um jovem de apenas dezenove anos cujas feições o remetem à amante morta. O coronel encarrega o oficial de interrogar o prisioneiro e descobrir o paradeiro de uma segunda bomba. Não há tempo a perder, e o tenente dispõe de duas horas para obter a verdade, por meios lícitos ou ilícitos de interrogatório.

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Como nos informa a sinopse da contracapa do livro, O Prisioneiro foi escrito para contestar e criticar a intervenção norte-americana na famosa guerra política (penso enquanto escrevo: Qual é a guerra que não é política?) do Vietnã, na qual o Vietnã do Norte (comunista) atacava violentamente o povo do Vietnã do Sul (capitalista), que se recusava a transformar-se em comunista após o conhecido plebiscito que obrigou o país a adotar a famosa Estrela Vermelha. Reconhecendo o perigo pelo qual seu sistema econômico passava, os EUA interviram na Guerra e tomaram partido do lado sulista.

O que está em jogo, percebe-se logo cedo, não é a vida dos milhares de civis e militares que estão entre o fogo cruzado, mas sim o destino do sistema político que seria adotado naquele país. Bombas de fabricação caseira são plantadas em hospitais, asilos, infantários e hotéis de luxo, e isso é interpretado pelos guerreiros apenas como uma espécie de sinal, como se o lado terrorista, autor desses atos macabros, simplesmente estivesse mostrando que possui mais poder.

Como ficção e entretenimento, O Prisioneiro é uma boa novela. Também elucida alguns detalhes e põe à mostra certas atrocidades que não podem ser esquecidas. Algumas passagens trazem à baila questões sobre o destino dos seres humanos em um mundo hostil, confuso e, em determinados momentos, acéfalo, burro.

No entanto, Erico Verissimo mexe em uma política delicada que, se analisada com certo levianismo, pode dar mal-entendidos. E foi isso o que aconteceu quando li O Prisioneiro; senti um certo desapontamento quando fechei o livro, lido em dois dias. Não é um desapontamento causado pela trama da história, nem pelo estilo de escrita do autor, e sim pelo ponto de vista que o escritor parece adotar e defender.

Fiquei com a desagradável sensação de que Erico Verissimo apoiou o lado comunista do Vietnã, que enfrentava os “brancos” norte-americanos com unhas e dentes para proteger o povo da sua terra contra os avanços do imperialismo estadunidense, mesmo que para isso se usasse meios nada decentes.

Só a título de ilustração: em certo momento da história, um guerrilheiro comunista é preso e interrogado por um sargento americano bruto e violento; o guerrilheiro é responsável pela implantação de uma bomba em um Bar/Café (que fez várias vítimas) e pela implantação de uma bomba cujo local ainda é ignorado. Ainda assim, mesmo com essa ficha criminal, Erico parece querer passar a mão sobre os cabelos do guerrilheiro e perdoá-lo, só porque ele “é um humano como todos nós.” Já o oficial norte-americano é narrado como um monstro. Não sei se isso encerra uma metáfora.

Mesmo assim, talvez Erico tenha querido transmitir a idéia de que somos todos humanos, sim, mas estamos inseridos nessa Engrenagem sistemática que nos disforma e suja. Mesmo assim: nenhum ato terrorista merece perdão, nem o de plantar bombas em bares nem o de ser violento para com um prisioneiro de guerra.

Por bem ou por mal… depois de ler este livro, cheguei à conclusão de que Erico Verissimo escreve melhor quando não toca em assuntos políticos delicados. A mensagem de O Prisioneiro para o leitor, por exemplo, é confusa.

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Talvez esta passagem da página 67 possa resolver tal questão que levantei acerca do lado que o autor apóia. (ou seja, nenhum)

É uma fala da professora, amiga do tenente:

“A idéia da existência de Deus não tem impedido que os homens, através de milênios, se tenham matado em guerras brutais. O importante, me parece, não é temer a Deus, mas amarem-se os homens uns aos outros… ou pelo menos não se odiarem tanto, a ponto de recorrerem à violência para resolverem problemas de coexistência.”

21 dezembro 2009

Incidente em Antares, de Erico Verissimo

"Há navios que andam por todos os mares da Terra, mas um dia encalham, enferrujam e se resignam a não continuar a viagem." (p. 164-5)

 Incidente em Antares Erico Verissimo

Ontem pela tarde, antes de trocar a água do aquário da Mila (meu peixe-espada), eu finalizei a leitura do romance nacional Incidente em Antares (1971), a última ficção escrita pelo gaúcho Erico Verissimo. Depois disso, o escritor apenas redigiu uma biografia (Um Certo Henrique Betarso) e as suas próprias memórias (Solo de Clarineta, Vol. 1 e 2), inacabadas.

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Sinopse: É 11 de dezembro de 1963. Há uma greve geral em Antares. O fornecimento de luz é interrompido, os telefones não funcionam mais, os coveiros encostam as pás. Dois dias depois, uma sexta-feira 13, sete pessoas morrem – entre elas, d. Quitéria, matriarca da cidadezinha.

Insepultos e indignados, os defuntos ganham vida e resolvem agir: querem ser enterrados. Reunidos no coreto principal da cidade, decidem empestear com sua podridão o ar da cidade. Enquanto ninguém os enterra, porém, resolvem acertar as contas com os vivos e passam a bisbilhotar e infernizar a vida dos familiares.

Como os personagens são cadáveres – livres, portanto, das pressões sociais – podem assim criticar violentamente a sociedade em que vivem e esfregar no rosto dos vivos todas as misérias humanas que os homens corruptos praticam.

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Confesso que, embora a sinopse supracitada sempre me parecesse interessante, não era a minha intenção ler este livro. Depois de me deliciar com todas aquelas aventuras humanas narradas no ciclo dos romances urbanos de Erico, Incidente em Antares – um romance político que critica a ditadura – me pareceu enfadonho e fora do círculo de coisas que eu chamo de empolgantes. Política nunca foi uma coisa que me chamou a atenção. A ditadura… muito menos.

Foi então que ganhei um cartão-presente da livraria que mais visito nos finais-de-semana. O valor do cartão era compatível com o valor do livro (edição de bolso, note-se bem). Pensei na possibilidade de adquiri-lo e finalmente decidi: Se eu não gostar do livro, pelo menos ele me saiu de graça.

Incidente em Antares é dividido em duas grandes partes. A primeira, “Antares”, narra os primordiais acontecimentos e circunstâncias que tornaram possível o surgimento da comunidade que dá nome à história. Nessa primeira parte é narrada toda a rivalidade que recai sobre as famílias Vacariano e Campolargo – a primeira, já fixada na região há muitas décadas, teve de enfrentar a segunda, que imigrou com pompa para Antares e pôs em risco a hegemonia vacariana. As duas famílias simplesmente se odeiam através de um ódio de morte, e isso gera pano de fundo para muitas situações engraçadas e, claro, terríveis assassinatos.

Até então, o livro é ótimo. Percebe-se que Erico não perdeu nunca a técnica do estilo que o consagrou na década de 30, e, embora entre o ciclo de romances e Incidente em Antares haja quase quarenta anos, as semelhanças entre as duas fases de sua obra são nítidas.

Entretanto, o momento enfadonho do livro começa cedo. Para ser mais preciso, eu diria que começa na página 46, capítulo 22. É aí que Erico Verissimo começa a traçar todo um panorama da vida política brasileira, desde a ascensão de Getúlio Vargas, passando pelos feitos de Juscelino até a tomada do poder por João Goulart. Embora haja uma trama ficcional por trás disso tudo – protagonizada por Tibério Vacariano –, a narrativa não me empolgou devidamente.

Pensei: Erico é Erico. Vou fazer um esforço.

Valeu a pena. Depois de algum tempo e várias páginas, a empolgação de novo bate à porta e o livro toma um rumo incrível, fantástico, em todos os sentidos desta última palavra. Naturalmente, como não é do feitio do Artigos Efêmeros (nem do meu feitio), não vou contar nenhuma revelação de enredo. Mas uma coisa é certa: o leitor volta a se empolgar com a narrativa antes mesmo da metade do livro. A segunda parte, “O Incidente”, é maravilhosamente ácida e cômica, sem nunca perder o bom-senso.

Quanto à crítica à ditadura… acho que não posso falar muita coisa a respeito. Não vivi naquela época. Não sei muito bem que tipo de coisas ocorriam naqueles tempos. Não posso saber se realmente eram tempos tão terríveis como dizem os mais velhos. Mas uma coisa é certa: é uma boa crítica, essa feita em Incidente em Antares.

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Abaixo, um dos muitos trechos interessantes de Incidente em Antares, que trata de forma metafórica o surgimento de uma mentira.

“Nasciam em Antares os boatos mais desencontrados. Ora, um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados. Um popular acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros, e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto – tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular –, começa a caminhar com as próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou.” (p. 127-8)

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edição:

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Cia. das Letras. (2006)

16 dezembro 2009

A Última Estação, de Jay Parini

“Tentou localizar o seu costumeiro medo da morte e não conseguiu. Onde estava a morte? (…) Não sentiu medo algum, porque a morte não existia.” (p. 397)

A Última Estação Jay Parini

Hoje, pelo final da tarde, finalizei a leitura do segundo livro da minha lista de férias: A Última Estação (The Last Station, 1991), escrito pelo norte-americano Jay Parini. Recorrendo aos diários de Tolstói, de sua família e de seus amigos, Parini remonta, na forma de romance, os últimos e conturbados acontecimentos na vida do célebre escritor russo.

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Sinopse: O ano é 1910. Liev Tolstói é o escritor mais famoso de toda a Rússia e um dos mais lidos em todo o mundo. Mas, quase a chegar aos 82 anos, o autor de “Guerra e Paz” almeja apenas um pouco de sossego, longe dos repórteres e fotógrafos e dos conflitos no lar. Baseado nos diários daqueles que integraram o seu círculo mais próximo e também no legado do próprio Tolstói, este livro recria o último ano da vida do grande vulto das letras russas até aos derradeiros momentos que se seguem à sua dramática e desesperada fuga de casa, em outubro de 1910.

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Aclamado pela crítica e pelo público (elogiado inclusive por Gore Vidal como “um dos melhores romances históricos escritos nos últimos vinte anos”), A Última Estação ganhou recentemente uma adaptação aos cinemas, estrelada por Paul Giamatti (A Dama na Água) e Helen Mirren (A Rainha). Além disso, venceu o prêmio George Washington Kidd Award e foi editado em mais de 20 países.

Deve-se admitir: o livro merece essa pompa toda. Jay Parini reconta, com uma grande fidelidade aos fatos e com uma notável força narrativa, um dos mais intrigantes e surpreendentes episódios da vida literária: Liev Tolstói, de Janeiro de 1910 a Dezembro do mesmo ano, sofreu uma pressão psicológica fortíssima, proveniente de todos os lados – de sua irascível e implacável esposa, Sofia; de seu discípulo mais devoto e exigente, Tchertkov; de seu frágil estado de saúde; dos controversos filhos, Tânia, Sacha e Andrei, e de todas as outras pessoas que esperavam dele mais do que um homem aos 82 anos pode fornecer.

O livro prende tanto a atenção do leitor que, por incrível que pareça, consegui ler em um único dia nada menos que 185 páginas, o que é o meu recorde atual. Normalmente sou uma pessoa que lê 60, 70 páginas (no máximo) em um mesmo dia.

A intriga fundamental de A Última Estação é a seguinte: com a notável chegada de Tolstói aos seus últimos dias de vida, Sofia Andreiêvna, esposa do escritor, quer assegurar-se de que terá, para ela e para os filhos, todos os direitos autorais do marido, o que garantirá a vida econômica da família para sempre (para se ter uma idéia do que está em jogo: uma poderosa editora da época ofereceu a quantia de um milhão de rublos pelos direitos literários de Tolstói. Um milhão de rublos é mais do que podemos imaginar.) Sofia sente que merece tal recompensa do marido porque, nos seus primeiros anos de casados, era ela a pessoa que dedicadamente ajudava Tolstói a transcrever e a alterar seus manuscritos de, por exemplo, Guerra e Paz.

Mas Sofia Andreiêvna não está lutando à toa. Também com a intenção de pôr a mão no testamento de Tolstói está o dedicado e controverso discípulo Tchertkov, que alega que o maior gesto que o escritor poderá fazer para a humanidade é o de colocar todos os seus livros ao alcance do povo, transformando-os em total domínio público; e, conseqüentemente, não deixando um vintém para a esposa e para os filhos. Naturalmente, com este rumo de acontecimentos, Tchertkov sairá ganhando: terá a oportunidade de reeditar as obras do famoso escritor russo a seu bel-prazer.

Uma das características marcantes do livro é a narrativa polifônica, em que as várias personagens narram as suas impressões em capítulos diferentes, numa espécie de diário, fazendo o leitor oscilar entre aceitar os seus motivos particulares ou não. Essa é, mais ou menos, a mesma técnica utilizada em clássicos como Drácula, de Bram Stoker, e Frankstein, de Mary Shelley.

Em suma, A Última Estação fornece um entretenimento garantido e empolgante, além de encerrar uma série de informações valiosas sobre os derradeiros momentos de Liev Tolstói.

Especialmente recomendado aos fãs de romances históricos.

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Abaixo, dois dos trechos que achei mais interessantes.

“A maioria dos dias lembra outros dias. Vão-se enfileirando, ceifados pelo tempo. Não se lamenta muito sua perda. Mas alguns dias gloriosos se destacam na memória, dias em que cada momento brilha isoladamente, como seixos numa praia. Anseia-se para tornar a possuí-los e se lamenta a sua distância.” (p. 63)

“Em minha adolescência fui atraído para imagens e pensamentos indecentes. Percebo, agora, que a questão da decência é fictícia. É decente o tsar forçar jovens russos a matar jovens de outros países, das maneiras mais brutais? É decente a sociedade permitir que as pessoas morram de fome nas ruas, morram sozinhas, em miseráveis isbás, que vivam como ratos (…)? Mas a atividade sexual, a forma como homens e mulheres decidem combinar suas partes físicas, é completamente neutra. É, simplesmente, a energia empregada nisso – o tempo roubado do trabalho mental e espiritual adequado – que a torna vil.” (p. 121)

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PARINI, Jay. A Última Estação. Rio de Janeiro / São Paulo: Record. (1991)

Postado ao som de: Heat of the Moment, by Asia

09 dezembro 2009

Ganhando Meu Pão, de Maksim Górki

"(…) expliquei a ela que viver era muito difícil e aborrecido e que, lendo, se esquecia isso." (p. 213)

Ganhando Meu Pão Górki

Dando oficialmente início ao Projeto Leitura de Férias (PLF) deste fim de ano de 2009, li o livro russo Ganhando Meu Pão (V Liúdiakh, 1916), em que o escritor Maksim Górki narra as memórias de sua pitoresca adolescência no final do século retrasado.

Este livro já estava em minhas mãos há muito tempo (muito tempo mesmo! Comprei-o há quase seis meses), mas só agora, com o advento das férias e o conseqüente esmoreciemento das atividades acadêmicas, tive uma oportunidade de lê-lo em paz.

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Sinopse (Cosac Naify): Neste segundo volume de sua trilogia autobiográfica, Górki narra os seus anos de formação, os primeiros trabalhos, leituras e experiências sexuais, a vida em meio à brutalidade e à penúria de uma Rússia ainda patriarcal. Entre as lendas e histórias do folclore, contadas com talento literário pela avó analfabeta, e a prosa dos grandes autores do país, que o menino descobre com fascínio, Górki forjou um estilo único.

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Ganhando Meu Pão é um livro que, antes de tudo, deve ser lido com atenção. Não é como ler um Haruki Murakami, por exemplo, ou um Júlio Verne, ou ainda um Michael Crichton, em que a narrativa é tecnicamente fácil de ser digerida e não é necessário recorrer a inúmeras notas de rodapé. Neste romance de Górki, desfila por nós (brasileiros do século XXI) um mundo totalmente diferente do que estamos acostumados: vê-se uma Rússia do século XIX onde homens espancam esposas com naturalidade, batem em criados e apostam brigas no meio da rua, além de terem também outras atitudes que não condizem exatamente com aquilo que chamamos de congruente.

É difícil imaginar, por exemplo, alguém dormindo em cima de um fogão. Digo isso porque há umas passagens em que Górki diz que determinada patroa sua dormia sobre o fogão da cozinha – e eu não cansava de tentar imaginar algo viável, possível, como alguém dormindo sobre um forno ou algo parecido. Às vezes é difícil encarar certas passagens de textos com uma idade já bem avançada por causa disso: não temos uma idéia muito precisa dos costumes da época em que o livro se passa, e é comum ficarmos perdidos no meio da narrativa, sem saber o que imaginar de um mundo para o qual não fomos apresentados.

Sem contar com os nomes em russo, com os quais não estamos acostumados e que nos fazem confundir personagens ou até mesmo esquecê-los, o que é ruim. De qualquer modo, apesar de todos esses empecilhos (que não são culpa do livro, naturalmente) a linguagem ágil e fácil de Górki nos chama a atenção e não deixa que nos percamos. Isto é, vale a pela ler o livro. Quem tiver cogitando a idéia de comprá-lo, compre.

Maksim Górki teve uma adolescência bem intensa, podemos dizer; ele passou uma boa parte da sua vida alternando entre estar na casa dos avós, estar na casa dos patrões (servindo como empregado doméstico) e estar prestando serviços em navios que cruzavam o rio Volga. E é nesses três ambientes que a narrativa do livro se espalha.

Na sua primeira viagem de navio (que ocorreu depois de ter abandonado a faina na casa dos patrões), Górki conhece um tipo interessante chamado Smúri, que lhe ensina algumas lições sobre a vida e lhe incute o hábito da leitura, muito importante para o futuro do jovem Maksim. De volta à terra firme, ele vai outra vez trabalhar na casa dos patrões, que lhe reprimem o ato de ler e lhe dão cada vez mais trabalhos domésticos, na tentativa de tomar o seu tempo. No entanto, nessa época, Maksim Górki conhece duas mulheres interessantes (Rainha Margot e a esposa do contramestre), que emprestam a ele livros de toda sorte e, conseqüentemente, despertam nele ainda mais o gosto pela leitura. Mais tarde, Górki viria novamente a ingressar em um navio – e, novamente, voltar para a casa dos patrões. (Detalhe: isso não é spoiler.)

Bem feitas as contas, eu diria que Ganhando Meu Pão é um livro interessantíssimo, além de muito bem desenvolvido. As passagens poéticas também são dignas de nota. Não é à toa que transformou-se em um clássico do gênero. Aliás, é impressionante também a memória de Górki, fotográfica: ele conseguiu narrar com uma total precisão de detalhes algo que já estava em um passado bem distante!

Pude me identificar enormemente com algumas partes da vida do autor. Gostei de quando ele partia em suas viagens de navio, as conversas que tratava com as pessoas mais velhas e o discreto desprezo que tinha para com os adolescentes acéfalos da sua idade (tal como eu). Sem contar com a cena final, que achei muito bonita e interessante.

É provável que um dia eu ainda leia o primeiro livro da série, Infância. Dizem que é o melhor dos três. Quanto ao Minhas Universidades, não tenho tanto a intenção de lê-lo.

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Abaixo, alguns trechos que achei bem interessantes. Valeu a pena transcrevê-los.

“Duas pessoas viviam dentro de mim: uma delas, tendo conhecido demasiada imundície e ignomínia, assustara-se um tanto com isso e, acabrunhada com o conhecimento terrível das coisas de cada dia, passava a tratar com desconfiança, com suspeita, a vida, os homens, com uma piedade impotente em relação a tudo, inclusive a si mesma. (…) Esse homem sonhava uma vida quieta, solitária, com livros, sem gente perto (…).

O outro, batizado com o espírito santo dos livros honestos e sábios, observando a força triunfal do terrível cotidiano, sentia com que facilidade essa força podia arrancar a cabeça dele, esmagar o seu coração com o pé imundo, e defendia-se com esforço, cerrando os dentes, apertando os punhos, sempre pronto a qualquer discussão ou combate.” (p. 425)

Lindo trecho. Este também é ótimo:

“E tem-se tanta vontade de dar um bom pontapé em toda a terra e em si mesmo, para que tudo, inclusive eu, passe a girar num alegre turbilhão, na dança festiva de pessoas apaixonadas uma pela outra, por essa vida, iniciada em prol de uma outra, bonita, animosa, honesta…

Pensava: Tenho que fazer alguma coisa comigo mesmo, senão estou perdido…” (p. 436)

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GÓRKI, Maksim. Ganhando Meu Pão. São Paulo: Cosac Naify. (1916)

Postado ao som de: Sailing to Philadelphia, by Mark Knopfler

26 novembro 2009

Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupèry

“Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver.” (p. 25)

Terra dos Homens A. de Saint-Exupèry

Hoje pela manhã finalizei a leitura do livro Terra dos Homens (Terre des Hommes, 1939), escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupèry. Sim, este mesmo: Saint-Exupèry, o autor do mundialmente venerado O Pequeno Príncipe. (Acho que eu sou a única pessoa na cidade que leu algo desse sujeito que não seja o seu tão famoso livro infantil.)

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Sinopse (Armando Nogueira): Saint-Exupèry tornou-se piloto civil aos 21 anos. Aos 26 integrou a equipe que foi sobrevoar o Saara e os Andes levando o correio aéreo da Europa para a África e a América do Sul. (...) Como devia ser a emoção de voar em aparelhos tão pequenos, contando apenas com a hélice e sem nenhuma presurização? É dessa emoção a matéria deste livro.

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A prateleira do meu quarto é composta por seis nichos diferentes; nos dois primeiros nichos de baixo, ponho os livros que venho comprando ao longo dos últimos anos. Nos últimos dois de cima, estão aqueles livros da família que são transmitidos de geração para geração, passados de mãos em mãos (das mãos do avô para as do neto, e assim sucessivamente). Certa noite, deitado na cama, olhei para esses dois nichos da minha prateleira, e vi, no meio de tantos volumes envelhecidos, um título: Terra dos Homens.

Um verdadeiro achado. Ele está na nossa família há anos, décadas mesmo, e, segundo me disseram, fora presente para o meu pai, dado por uma ex-namorada dele - em um tempo onde, note-se bem, as namoradas ainda davam livros de presente para os seus namorados. Isso confere ao livro um caráter mais pictórico ainda, creio. Peguei o volume lá de cima, quase caindo no ato, e deitei-me na cama para começar a lê-lo. No momento em que o abri, a capa se despregou e caiu das minhas mãos.

Terra dos Homens é um livro de memórias. Saint-Exupèry nos conta sobre o ofício de pilotar pequenos aviões-correio, cruzando os desertos da Arábia e os oceanos do sul da Europa. O texto todo é dividido em oito capítulos pequenos (A Linha, Os Companheiros, O Avião, O Avião e o Planeta, Oásis, No Deserto, No Centro do Deserto e Os Homens), todos eles trazendo-nos pequenas e despretensiosas lições, lições estas tão despretensiosas que podemos dizer que o autor nem cogitou em denominá-las “lições”.

A verdade é que Terra dos Homens é um livro que fala diretamente às nossas partes mais sensíveis, mais poéticas. É com um estilo do tipo haicai que Exupèry narra as suas aventuras aéreas pelo mundo, contando-nos desde a sua relação com um escravo (o qual mais tarde comprou apenas para libertá-lo), até a queda do seu avião no deserto das Arábias, onde ficou com o companheiro Prévot durante vários dias, morrendo de sede e tendo alucinações, até ser encontrado por um beduíno.

Para ser sincero, tenho pouca coisa a falar sobre este livro, com a exceção de que gostei imensamente dele. É um relato simples, frugal e, ao mesmo tempo, ricamente poetizado, cheio de frases que nos põe a refletir bastante. É o tipo do livro que deixa uma impressão indelével em nossa mente. A propósito, adorei o capítulo Oásis, onde ele nos conta sobre uma noite em que se viu convidado por um casal de estancioneiros a jantar em sua casa; lá, Exupèry fica como que hipnotizado pelas duas moças filhas do patriarca e pelo “império” que elas exerciam sobre os elementos naturais da casa, como as víboras que surgiam debaixo da mesa da sala na hora do jantar.

Nota 10.

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O livro é cheio de partes muitíssimo interessantes, e todas elas teriam o direito de estar aqui, mas transfiro para cá apenas uma única dentre todas elas:

“A vida nos separa dos companheiros e nos impede de pensar muito nisso. Eles estão em algum lugar, não se sabe bem onde (…).

Mas pouco a pouco descobrimos que não ouviremos nunca mais o riso claro daquele companheiro; descobrimos que aquele jardim está fechado para sempre. Então começa o nosso verdadeiro luto, que não é desesperado, mas um pouco amargo. Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido. Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantas horas más vividas juntos, de tantas reconciliações, de tantos impulsos afetivos. Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um carvalho na esperança de ter, em breve, o abrigo de suas folhas.” (p. 24)

25 outubro 2009

O Escafandro e a Borboleta, de Jean-Dominique Bauby

"Longe desse escarcéu, no silêncio reconquistado, posso ouvir as borboletas voando pela minha cabeça." (p. 105)

O escafandro e a Borboleta Jean D. Bauby

Na minha cabeça existe uma lista de histórias que mais me impressionaram e mais me inspiraram a viver uma vida de dedicação, esforço e altruísmo. Essas histórias ainda fizeram com que eu visse que os meus problemas mundanos, perto dos problemas extraordinários retratados nessas histórias, não são absolutamente nada dignos de nota.

Senão, vejamos...

Nessa minha lista está o verídico drama do Milagre dos Andes, em que um time de rúgbi teve de enfrentar as cadeias geladas de montanhas dessa cordilheira latina, após o seu avião chocar-se contra uma delas. Depois de 72 dias na neve, os rapazes conseguiram voltar para casa, não sem antes passarem por uma sucursal do inferno, onde a força de vontade e a fé teve de atingir o seu grau máximo para que a sobrevivência fosse possível.

Na mesma lista está a história famosíssima de Anne Frank, a adolescente alemã que, durante o período em que se manteve escondida com a família e alguns "amigos" em um prédio na Holanda, escreveu um diário que mais tarde se tornaria símbolo do Holocausto e da luta pela justiça, além de ser "um dos livros mais importantes do século XX", segundo o New York Times.

Continuando a seqüência da minha lista de "histórias humanas incríveis", temos a surpreendente aventura do norte-americano Christopher Johnson McCandless, jovem de família abastada que, embora de maneira um pouco equivocada e egoísta, abandonou o conforto de sua vida para ir trilhar os caminhos áridos do país, numa jornada de puro auto-conhecimento e simplicidade, onde a busca pela felicidade frugal reinava.

Pois bem. Devo dizer que, com o término da leitura do livro O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 1997), essa minha lista de admirações ganhou mais um item.

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Sinopse: No dia 8 de dezembro de 1995, o redator-chefe da revista francesa Elle, Jean-Dominique Bauby, sofreu um terrível derrame cerebral que lhe deu uma das mais terríveis conseqüências prognósticas clínicas: todos os músculos do seu corpo ficaram paralisados e não permitiam o menor movimento, com a exceção de um - a pálpebra do olho esquerdo. E é com esta pálpebra que Bauby aprendeu a se comunicar com o mundo externo e, por fim, por incrível que pareça, conseguiu escrever um livro sobre a sua rotina no Hospital Becker, à beira-mar.

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Um feito extraordinário. Essas três palavras são capazes de resumir, de forma simples e precisa, a imagem de O Escafandro e a Borboleta. É um livro em que os limites do possível - como em muitas outras ocasiões que se vê por aí - são colocados à prova. Afinal de contas, como alguém que só consegue mexer a pálpebra do olho esquerdo pode escrever um livro de memórias?

"Simples" assim: um alfabeto distinto (em que as letras mais usadas do idioma são as primeiras) é ditado em voz alta para Jean-Dominique. Quando a letra pretendida por ele é proferida, Dominique pisca o olho uma vez. A letra é escrita então em um caderno à parte e a pessoa volta a ditar o alfabeto conveniente, desde o início, letra por letra. De súbito Dominique pisca o olho outra vez. E assim vão-se formando as palavras. E as frases. E as páginas inteiras.

Parece propício para nós imaginar que, pelo fato de se tratar de um escritor enfermo por uma debilidade tão devastadora, o relato de O Escafandro e a Borboleta seja constituído por uma espécie de telegrama mórbido onde as palavras são jogadas a esmo e o leitor que se vire para decifrar as derradeiras impressões de um doente tetraplégico como Bauby. No entanto, é um engano pensar assim. Este é um livro lindo e, muito mais que um simples relato funesto das semanas no hospital, é também um verdadeiro haicai de parábolas e pensamentos metafóricos escritos em linguagem viva e penetrante. Por sinal, às vezes passava pela minha cabeça o seguinte pensamento: Como é que o cara consegue manter uma calma tão estóica assim diante de uma guinada avassaladora em sua vida? Parece realmente ser algo que de fato não pertence ao mundo das coisas normais.

É claro que, apesar da aparente descontração narrada naquelas páginas, Bauby passa por momentos de melancolia bem difíceis. São situações cujas implicações realmente nos devem pôr para pensar. Por exemplo, o que dizer do momento em que Bauby vai passear pela orla da praia, de cadeira de rodas, em um dia de sol, na companhia da ex-mulher e dos filhos pequenos? Theóphile, o rapazinho, o contempla num mutismo doloroso; Celéste, a mocinha (mais nova que o irmão), limpa a boca babante do pai e lhe sorri de modo afetado. E Bauby reflete que é mais que horrível não poder passar a mão pelos cabelos dos filhos. Deve ser, mesmo.

Como muitas pessoas já devem saber, existe uma adaptação cinematográfica homônima deste livro. É uma produção francesa dirigida por Julian Schnabel (que foi indicado a melhor diretor pelo Cannes justamente por causa dessa obra) e produzida por Katheleen Kennedy (a mesma de Jurassic Park e O Curioso Caso de Benjamin Button).


Apesar de haver no filme muitos elementos largamente alterados ou fictícios - como naturalmente haveria de ser, já que seria uma história levada para os cinemas -, há também toda a gama de sensações que são encontradas no livro e que, de fato, são responsáveis por nos comover. Portanto, além do livro, recomendo o filme.

Em suma, como diria Elie Wiesel, O Escafandro e a Borboleta "conta como transformar dor em criatividade, sofrimento humano em milagre literário." Sem sombra de dúvidas, estamos diante de um livro incrível e altamente recomendado para aquelas pessoas que, sobretudo, amam a vida.

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Abaixo, segue-se uma passagem curta e aleatória do livro:

"É domingo. O sino badala gravemente as horas. Na parede, o pequeno calendário da Assistência Pública, cujas folhas vão sendo arrancadas dia após dia, já indica que é agosto. Por qual paradoxo o tempo, imóvel aqui, corre ali desenfreadamente? No meu universo encolhido as horas se espicham e os meses passam como relâmpagos. Não me conformo de estar em agosto. Amigos, mulheres, filhos se dispersaram no vento das férias." (p. 109)

A seguir, um pensamento muito interessante de Bauby, que (estranho) não se encontra no livro.

"Considero saudável estar só na maior parte do tempo. Estar acompanhado, mesmo pelos melhores, cedo se torna enfadonho e dispersivo. Adoro estar só. Nunca encontrei um companheiro tão sociável como a solidão. Estamos geralmente mais sós quando viajamos com outros homens do que quando permanecemos nos nossos aposentos. Um homem quando pensa ou trabalha está sempre só, deixai-o pois estar onde ele deseja; a solidão não é medida pelas milhas de espaço que separam um homem e os seus congêneres."

17 setembro 2009

Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom

"Agora sei o que é assumir o controle de meu destino. É terrível e maravilhoso."

Quando Nietzsche Chorou Irvin D. Yalom

Hoje pelo início da tarde, após um grande debate que tive com o meu pai sobre a origem do Universo, eu finalizei a leitura do romance Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept, 1992), escrito pelo eminente psiquiatra Irvin D. Yalom, norte-americano filho de imigrantes russos.

O livro foi o presente de aniversário que recebi do meu amigo Alfred, o padre alemão que estuda Psicanálise comigo na universidade.

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Sinopse: De férias em Veneza, o clínico-geral Josef Breuer encontra a jovem russa Lou Salomé, que lhe pede um favor excêntrico: tratar da depressão suicida de seu amigo Friedrich Nietzsche.

O que se estabelece entre ambos é uma relação na qual as funções de médico e paciente se confundem, pois Breuer encontra na filosofia de Nietzsche algumas respostas para suas próprias dores existenciais.

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As primeiras vinte ou trinta páginas do livro me empolgaram de verdade. "Parece ser realmente uma história muito boa", eu disse para a Natália, uma amiga minha que, assim como eu, é absolutamente aficcionada por literatura. "É mesmo?", ela retorquiu. "Sim", respondi, "pode ser uma boa maneira de mergulhar na filosofia de Fritz Nietzsche e na psicoterapia. Estou gostando do começo: há uma espécie de mistério envolvente."

Porém, quando cheguei à primeira centena de páginas, confesso que não me motivava mais tanto a idéia de pegar o livro novamente e lê-lo. Acho que o tempo escasso proveniente do absurdo de trabalhos na universidade atrapalhou muito a leitura, sim, mas a verdade é que perdi a empolgação subitamente. A trama do livro não conseguia mais despertar o meu interesse; o enredo, para mim, se tornou muito linear, pouco complexo, baseado apenas em extensos e por vezes enfadonhos diálogos entre Breuer e Nietzsche.

Além disso, o estilo narrativo da linhagem "best-seller" me desgostou um pouco. O ritmo da leitura então começou a se arrastar.

No entanto, outra guinada ocorreu de repente, desta vez para cima de novo, como no começo. À altura da página 200, mais ou menos, a trama começou a se intrincar e os personagens começaram a ganhar uma importância maior na história; de modo que a falta de ânimo que eu sentira no desenvolvimento foi compensada pelos momentos agitados do final do livro. E o resultado absoluto foi este: gostei muito, e o recomendo para qualquer pessoa que se interesse pelo assunto.

Tecnicamente, o que temos aqui é um romance que mistura realidade e ficção de uma maneira tal que, se não fosse pela nota do autor nas últimas páginas, não saberíamos precisar onde termina o fato e onde começa a imaginação. Lou Salomé, por exemplo, foi uma jovem que realmente existiu e que realmente se envolveu com Nietzsche, ao passo que o cunhado de Breuer, Max - que eu imaginava ter existido na realidade -, era fruto da criação do autor. Tendo essa confusão em vista, pode-se muito bem abandonar a tentativa de dizer o que é real e o que não é, e simplesmente curtir a história.

Uma coisa que eu achei bem interessante no livro foi ver o papel totalmente secundário de Sigmund Freud, o próprio fundador da Psicanálise. Os únicos momentos em que ele aparece são nas rápidas lições médicas com Breuer, dentro da biblioteca da mansão deste. No restante do enredo, o grande Freud praticamente não dá as caras, mas ainda é curioso ver que as formulações que ele tem com Breuer são a base do que mais tarde viria a ser seu estudo dos sonhos e do inconsciente.

Enfim, Quando Nietzsche Chorou é um ótimo romance. Apesar de ter me faltado ânimo no miolo do livro, devo dizer que isso não se deveu a alguma qualidade ruim da história, mas antes a uma exigência meio elevada da minha parte. É um livro bem didático, também: a explanação da Teoria do Eterno Retorno, por exemplo, é bastante clara e provocadora, e me fez pensar muito sobre as coisas.

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A seguir, um dos trechos do livro que têm relação com a Teoria do Eterno Retorno. Não sei se esta passagem surte o mesmo efeito tanto nas pessoas que não leram o livro, quanto nas que o leram.

"Cada vez que você escolhe uma ação, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo se dá com cada ação não realizada, cada pensamento natimorto, cada escolha evitada. Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a eternidade. A voz ignorada de sua consciência continuará clamando para sempre. (...) Este momento existe para sempre e você sozinho é a sua platéia."

(YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche Chorou, página 306, editora Agir; 35ª edição.)

27 agosto 2009

Os Sobreviventes, de Piers Paul Read

"Havia pouca chance de [o avião] ser encontrado, e menor chance ainda de algum dos quarenta e cinco passageiros ter sobrevivido ao desastre." (página 11)

sobreviventes Piers Read

Hoje pela tarde, antes que o sol pudesse se esconder completamente atrás do horizonte, finalizei a leitura do livro de não-ficção Os Sobreviventes (Alive: The Story of The Andes Survivors, 1975), escrito pelo romancista inglês Piers Paul Read e cujo objetivo o próprio título original já menciona: contar a história por trás do terrível acidente na Cordilheira dos Andes, em 1972, envolvendo uma jovem equipe amadora de rúgbi uruguaio.

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Sinopse: Nos picos nevados da Cordilheira dos Andes, onde só o vento quebra o silêncio, o único sinal de vida é a luta de 45 pessoas atingidas pelo destino da maneira mais cruel e dramática possível: a desesperada luta pela vida. O avião em que voavam, e que os levaria ao Chile, perdeu o senso de direção e chocou-se contra as montanhas geladas. Os sobreviventes, para não morrerem de fome, devoram os seus amigos mortos.

Read penetra com maestria na condição humana mais delicada e frágil, desvendando a vivência terrível de um confronto com a morte iminente e avassaladora.

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Essa talvez seja a história real mais impressionante de que eu já tomei conhecimento até hoje. Conheci-a há vários anos atrás, quando, em uma noite de Natal, meu irmão mais velho me disse: "Ei, Renan, hoje vai passar na TV o filme Vivos. Quero que você assista; essa história é bem famosa e marcante." De fato, assisti ao filme - que fala sobre o terrível acidente - junto com o meu irmão, e, como naquela época eu ainda era uma criança, não consegui dormir sozinho no quarto à noite. As imagens dos jovens uruguaios cortando a carne dos seus amigos mortos, para comê-la, mexeu profundamente comigo naquele tempo; e, por que não confessar?, mexe até hoje.

Tal história exerceu sobre mim um misto de fascinação e horror deslumbrado que, muitos anos depois, não me contive e pedi (como presente de Natal) para o meu pai o livro Milagre nos Andes - este escrito em 2007 por um dos próprios sobreviventes do desastre, Fernando Parrado. É um relato muito pessoal de onde transbordam as mais diversas emoções, frustrações e anseios no coração do jovem Parrado; lá, tudo é contado com sinceridade comovente, inclusive o triste fato da antropofagia necessária.

Finalmente, na semana passada, enquanto passeava displicentemente pelos corredores da biblioteca da Universidade de Fortaleza - à procura de um compêndio de Psicologia -, esbarrei com o livro Os Sobreviventes em uma das estantes. Eu sabia de antemão da existência desse livro: sabia que se tratava da tragédia dos Andes que tanto me fascinara quando criança e sabia que havia sido escrito imediatamente um ano após o acidente, por ninguém menos que Piers Read, um especialista na arte de contar histórias.

Resultado: aluguei o livro e comecei a lê-lo embaixo das árvores floridas da Universidade. Mal havia chegado à página 30, decidi que iria devolvê-lo e ir atrás de um sebo, na tentativa de comprá-lo. Minha melhor amiga, Natália, disse que eu era louco ao sair para comprar um livro cuja leitura poderia ter feito de graça. "Há certas coisas que devem permanecer conosco para sempre", repliquei, sorrindo.

Os Sobreviventes, apesar de tratar de uma história verídica, é narrado no mais completo e fascinante tom de romance. As cenas são escritas de forma detalhada, clara, sincera, de modo tal que fisga o leitor e é praticamente impossível, para este, largar o volume. A voz de Read é impecável. A história que ele conta, incrível. Juntas, as duas coisas não poderiam deixar de formar um belo e empolgante relato.

Das 45 pessoas que estavam no avião, indo em direção ao Chile, apenas 16 conseguiram retornar à sociedade e aos parentes. Mas não sem antes enfrentarem o suplício da queda do Fairchild nas montanhas, o caos infernal que se seguiu logo após, o frio avassalador, a fome pungente, o horror ante à idéia de ter que devorar o corpo dos próprios amigos para sobreviver, a desesperadora notícia de que os resgates haviam sido cancelados, tudo isso sem contar com a terrível avalanche que atingiu a carcaça do avião, certa noite, matando grande parte das pessoas que lá estavam tentando dormir.

Quanto à antropofagia a que os sobreviventes foram submetidos, diz Read:

"Chegaram, por necessidade, a comer quase todas as partes do corpo. Canessa sabia que o fígado continha reservas de vitaminas; por essa razão, comia e encorajava os outros a fazê-lo (...). Superada a repulsa em relação ao fígado, foi mais fácil passar para o coração, rins e intestinos [além dos cérebros e testículos, como é citado mais tarde]. (...) As camadas de gordura cortadas do corpo eram secadas ao sol até que se formasse uma crosta, e depois comida por todos. (...)"

Por mais tenebroso e assustador que o fragmento acima possa parecer, o livro de Read não se atém única e necessariamente a este mórbido detalhe de comer carne humana. (Muito embora a descrição na página 165 me tenha feito deixar o livro de lado e respirar fundo). De qualquer modo, narrando as experiências atrozes dos rapazes ou não, além das cenas macabras - que inevitavelmente teriam de estar lá -, o livro Os Sobreviventes também fala da perene esperança, da coragem soberba e, sobretudo, da determinação estóica de todas as pessoas envolvidas no acidente.

Todas elas, como uma grande equipe coordenada, ajudaram-se mutuamente durante os penosos 72 dias - umas em maior ou menor grau, por natureza - na tentativa de sobreviver nas montanhas hostis da Cordilheira dos Andes.

Para os 16 sobreviventes da tragédia, o inferno é gelado, ao contrário do que muitos pensam.

"Qual foi a coisa mais corajosa que você já fez?", perguntou Natália, minha amiga, após eu ter lhe contado a história do livro. A pergunta me pegou de surpresa, e senti que havia certa necessidade em parar para refletir sobre essa questão. Minha vida não é pontilhada de feitos heróicos; nunca salvei ninguém da morte, nunca ajudei ninguém a tomar uma decisão muito importante, nunca fui a peça-chave para uma situação delicada. O significa ser um herói, afinal de contas? Um mártir, é isso?

"A coisa mais corajosa que eu já fiz foi me levantar da cama hoje pela manhã, e enfrentar toda essa faina diária", respondi a Natália, e demos o assunto por encerrado.

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Abaixo, transcrevi um fragmento do texto de Piers Read que ilustra bem a situação dos rapazes no meio do seu suplício nos Andes.

"O frio terrível, combinado com as roupas molhadas, esgotava as forças. Não comiam nada há dois dias e sentiam-se então imensamente famintos. Os corpos daqueles que haviam morrido no desastre permaneciam enterrados na neve, fora do avião, de modo que os primos Strauch desenterraram um daqueles que tinham morrido com a avalancha e cortaram a carne do seu corpo diante dos olhos de todos. Anteriormente, a carne fora cozida ou pelo menos secara ao sol; agora não havia alternativa senão comê-la molhada e crua como saísse do osso, e como estavam famintos, muitos comeram grandes pedaços, que tiveram de mastigar e saborear. Foi terrível para todos; sem dúvida, para alguns foi impossível comer pedaços de carne cortada do corpo de um amigo que dois dias antes estivera vivendo ao lado deles."

(READ, Piers Paul; Os Sobreviventes, página 106, editora Nova Fronteira.)

20 agosto 2009

De Cabeça Para Baixo, de Fernando Sabino

"Eu nunca ouvira falar em Yosemite. Nem sabia da existência desse parque com nome de doença". (pág. 166, 7ª edição)

cabeça sabino

Ontem pela manhã, antes de trocar a água do aquário da Mila (minha peixe-espada de estimação), finalizei a leitura do livro De Cabeça Para Baixo (1989), que é o relato das viagens do escritor mineiro Fernando Sabino pelos quatro cantos do mundo. Além de ser o reconhecido autor do romance O Grande Mentecapto (1979), Sabino tem o status de ser um dos nossos melhores cronistas contemporâneos.

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Sinopse (Record): Desde a sua descoberta da Europa em 1959 até se ver de cabeça para baixo no Extremo Oriente, Fernando Sabino relata o melhor de suas andanças, tropelias e trapalhadas por este mundo afora em quase trinta anos. E o faz na linguagem ágil, viva e quase sempre hilariante que o consagrou como um dos prosadores mais lidos do Brasil.

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(Pequeno parêntesis: Algumas pessoas sabem que, desde que eu me entendo como mortal, sempre tive certo receio para com a literatura brasileira: ou a achava sem graça ou muito pretensiosa. E o motivo de agora eu estar buscando tantos livros nacionais, nos últimos dias, se deve ao fato de que fui "traumatizado" há uns quatro ou cinco meses, quando li duas versões distintas de Jurassic Park - portanto, duas traduções diferentes. O livro é magnífico, como todos sabem, mas, ao ler as duas traduções separadas, vi quão diferente pode se tornar um romance no que depender do tradutor. Essa perspectiva me deixou desconfortável, tanto que agora estou preferindo buscar aqueles livros que já foram originalmente escritos no meu idioma: português-BR.)

Bem, devo admitir que demorei um éon (isto é, uma verdadeira eternidade) para finalizar a leitura de De Cabeça Para Baixo. Geralmente eu demoro cinco ou seis dias para terminar um livro de 320 páginas (como é o caso deste), mas, pelo fato de não ter gostado tanto do estilo do Sabino, demorei algo em torno de um mês e meio para finalizar esse seu relato de viagens.

E os motivos para a minha falta de vontade são simples. Primeiro, De Cabeça Para Baixo se arrasta em uma narrativa que me deixa bastante desanimado: é metida a moderna, do tipo que engole vários verbos e abusa dos gerúndios. É o caso de por exemplo "A viagem mal começou e eu já inaugurando esta caderneta." (pág. 9). Cabe a reflexão: Qual é o problema em inserir a palavra "estou", entre "já" e "inaugurando"?

Sabino também tem o desagradável costume de escrever as suas frases pela metade. Pode-se notar isso no início do capítulo 3. Diz ele: "Série de reportagens para o JB sobre o que está acontecendo nas grandes cidades do mundo." O que há de errado em dizer "Estou fazendo uma série de reportagens para o JB sobre..."? Ou "Fui incubido de fazer uma série de reportagens para o JB sobre..."? O jeito incompleto com que ele escreve como que desloca o leitor, interrompendo o fluxo intuitivo da leitura.

Pode parecer birra da minha parte, mas a verdade é que eu não gosto desses invencionismos literários. Honestamente, não gosto desse tipo de estilo narrativo. Para mim, um livro que se preze deve conter antes de tudo uma linguagem consistente, articulada e, sobretudo, clássica. É lógico que não estou me referindo a um clássico rebuscado e difícil, do tipo de Dostoiévsky, mas a um clássico tradicional, talvez do tipo de Michael Crichton, por exemplo, que dá prazer ao leitor por conta da gramática e das construções impecáveis das frases. (Aliás, Crichton escreveu um relato de suas andanças que até hoje tenho como o melhor de todos: Álbum de Viagens, editora Rocco.)

O segundo motivo do meu desgosto para com a leitura do livro do Sabino, além da linguagem da narrativa, é a própria ausência de significância dos acontecimentos narrados. Sabino nos conta sobre as suas viagens rocambolescas ao Peru, à Alemanha, à Cuba, ao Irã, ao México e a tantos outros lugares do mundo, mas, ao final de cada capítulo, não transmite nenhuma conclusão definitiva e consistente para os leitores. Isso me decepcionou um pouco, porque, tendo em vista que Fernando Sabino é um dos nossos melhores prosadores, senti falta de uma mensagem à altura em seu relato; os acontecimentos lá são apenas narrados, e não dão margem a nenhuma outra interpretação subjetiva.

É como ler o diário da minha prima, eu acho. Não há nenhum subjetivismo admirável - apenas os acontecimentos narrados com uma objetividade enfadonha.

No entanto, cabe agora um grande "porém". Apesar dos dois motivos supracitados, que me deixaram com o cenho franzido em relação ao livro, devo admitir uma coisa. Nunca ri tanto lendo um relato de viagens. Isso é verdade.

São hilários os momentos em que o autor se vê às voltas com problemas na comunicação entre ele e as pessoas dos países para os quais viaja. Por exemplo, na manhã em que ele acorda em um hotel da Alemanha, trôpego de sono, ergue o interfone que está tocando e ouve alguém perguntar do outro lado da linha: "Pode soltarrr o gato?"

Pelo menos foi o que eu entendi. Respondi que sim, não tinha dúvida: no que dependesse de mim, podia soltar o gato. E fui direto para o banheiro lavar o rosto. (...)

Só mais tarde juntei as pontas e me ocorreu que devia ser o alemão da portaria me acordando, conforme instrução minha deixada na noite anterior.

Além dessas piadinhas da vida cotidiana que me fazem rolar de rir, há também os cômicos comentários do amigo de Fernando Sabino, Otto Lara Resende, ao longo do texto. Quando Sabino, a certa altura, faz uma de suas trapalhadas durante a viagem, ele próprio escreve: "E ainda há quem me ache inteligente..."

Em uma nota de rodapé, lá está o Otto: "Quem?"

Então, pode-se dizer isto: o livro que terminei de ler ontem pela manhã, antes de trocar a água do meu peixe, tem os seus altos e baixos - altos muito altos, e baixos muito baixos. Se um marginal pusesse um revólver na minha cabeça e dissesse "Dê uma nota para o De Cabeça Para Baixo, do Fernando Sabino, agora!" (apenas dou nota para os livros em casos de extrema necessidade), eu diria: "Cinco! Agora por favor, não me mate!" Cinco porque é uma avalição meio-termo. Os momentos hilários do livro compensam os outros momentos, os que não têm nenhum viés literário digno de um escritor internacionalmente reconhecido como Sabino.

P.S.: Fernando Sabino é também autor do livro O Encontro Marcado (1956), obra que li no ano passado e de que gostei bastante.

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Abaixo, segue-se uma das passagens engraçadas que me fizeram rir a valer:

"Antes de voltar para Bruxelas, eu e o Otto conseguimos ver o famoso 'Agneau Mystique' de Van Eyke na Igreja de Saint Bavon, conforme recomenda o Guia. Num de seus acessos de insensatez, Otto me fez subir com ele a torre da igreja, para apreciar a paisagem lá de cima. São quatrocentos degraus! O equivalente a 22 andares. Meu desvairado companheiro riscou nosso nome no parapeito do terraço com a chave do carro, para ficar eternamente comprovado que estivemos lá.

De volta ao carro verificamos que ele havia esquecido a chave lá em cima. Teve que voltar para buscar. Sozinho, é claro."

(SABINO, Fernando. De Cabeça Para Baixo, pág. 14, 7ª edição, Record.)

11 maio 2009

Next, de Michael Crichton

Neste exato instante de uma noite chuvosa de segunda-feira, termino a leitura do sem dúvida mais polêmico livro escrito pelo romancista norte-americano Michael Crichton: Next (Next, 2006), que já rendeu boas controvérsias por parte da crítica, assim como o antecessor e ousado Estado de Medo. Por ora, o que acontece comigo é isso mesmo: enquanto o livro de Haruki Murakami não chega pelo correio, passo o meu tempo relendo as obras de Michael Crichton.

Sinopse (site Siciliano): Entremeando a narrativa com notícias de jornal e artigos científicos, Michael Crichton trata com ironia e perplexidade o atual universo da pesquisa genética, traçando uma visão sombria da vida humana hoje, negociada em bancos de óvulos e esperma na Internet ou em testes capazes de identificar parceiros ideais para gerar descendentes perfeitos. "Next" traz um inescrupuloso mundo novo, no qual a genética torna-se um escuso negócio de bilhões de dólares.

Na minha singela opinião, Next é um livro muito bom - e que isso fique bem claro ao longo de toda a resenha. Eu apenas diria que ele tem dois pontos fracos. O primeiro é que, nos quase 100 capítulos do livro, é-nos apresentada uma miríade de histórias cujas tramas possuem outra miríade de personagens, tornando-as, assim, muito superficiais e mal-elaboradas. O autor não se preocupa em tratar bem o enredo do romance, criando uma vasta seqüência de narrativas paralelas das quais ele acaba perdendo o controle. Acho que existem mais de 50 personagens em todo o livro. Sério. O outro ponto fraco é que muitos termos técnicos são utilizados no texto e, embora eles sejam colocados de maneira meio didática, isso acaba tornando algumas partes maçantes e de difícil compreensão. Como é o caso de "A patente reivindica efeitos potenciais sobre os neurotransmissores no giro do cíngulo".

De qualquer modo, sustento a idéia de que Next não tenha sido escrito para entreter os leitores. Pelo menos não entreter da forma tradicional, criando uma história que segue um determinado ritmo "contagiante". Suponho que a verdadeira intenção de Crichton tenha sido a de tecer um amplo panorama dos absurdos da ciência corporativa no mundo atual, escrevendo pequenas histórias paralelas que mexem com bizarras situações envolvendo experiências genéticas, evidenciando, assim, o quanto a humanidade está extrapolando os limites da razão nas pesquisas científicas.

Exemplos dessas bizarras situações são: um papagaio africano transgênico que fala fluentemente como um ser humano. Um orangotango poliglota experimental largado na selva da Sumatra. Um chimpanzé gerado a partir de sêmem humano que se comporta como uma criança. Uma tartaruga-marinha cujo casco foi alterado para que exibisse propagandas comerciais de grandes empresas. Uma orelha minúscula criada em laboratório por renomados cientistas. Universidades patenteando células de uma pessoa viva, que perde completamente os direitos sobre o próprio corpo.

Fica evidente que o autor escreveu este livro na tentativa de alertar as pessoas para o caos no qual o mundo está se transformando, graças às experiências científicas mal-planejadas, não-autorizadas ou desnecessárias. Pelas obras anteriores de Michael Crichton, podemos perceber que ele realmente teme um pouco esse avanço desenfreado da ciência, especulando que uma má política administrativa sobre o campo científico de fato poderá acabar com todos nós. Não é nem um pouco difícil constatar isso pelos seus romances anteriores: todos eles tratam de inovações científicas que deram errado, e todos os administradores das grandes empresas são sempre uns bons filhos-da-mãe. (Esse é outro aspecto curioso em Next: todos os seus personagens são sempre sacanas, corruptos ou devassos.)

É interessante, também, perceber o quanto Michael Crichton distancia-se de sua narrativa habitual para escrever Next. Neste livro, o autor usa-se de uma linguagem que não lhe é muito comum: insere palavrões às pampas, sem rodeios, e uma amarga ironia quase incurável está presente em todo o texto. Parece até que o escritor pensou: "Sabe de uma coisa? Quero que essa humanidade estúpida se f***. Vou escrever um livro mostrando toda a verdade sórdida por trás dela e esculachar todo mundo". Eh, aquele humilde (e tão bom) narrador de aventuras não está presente aqui em Next. Infelizmente. No seu lugar, aparece um irascível escritor desiludido com as pessoas.

Mesmo assim, Next não faz feio e acaba sendo uma boa mistura de cômico e bizarro. É uma daquelas histórias que, de tão absurdas, chegam a ser engraçadas. No entanto, basta nos lembrarmos de que tudo o que está escrito ali é perfeitamente factível para que ela então deixe de ser engraçada - e passe a ser assustadora. Porque, afinal de contas, são esses absurdos científicos retratados no livro que um futuro próximo nos reserva. Bem próximo.

Next.

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P.S.: Acabei de ver aqui que Michael Crichton é o escritor mais lido do mundo. Eu sempre soube que ele era bem popular no planeta inteiro, mas não ao ponto de conquistar esse título. Pensei que esse status de "best-read" pertencesse a J. K. Rowling ou a Barbara Bradford Taylor.

P.S. 2: Depois da morte do autor, no final do ano passado, a editora americana que publicava os seus livros disse que editará Pirate Latitudes, um romance que Crichton nunca pensou em publicar em vida. Nota mental: dado isso, então, seria moralmente correto publicá-lo?